arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Entrevista

por: Luís Santiago Baptista e Paula Melâneo

Jacinto Rodrigues

Filósofo, Docente FAUP, Investigador Centro de Estudos Africanos-UP, Autor "Sociedade e Território: Desenvolvimento Ecologicamente Sustentado" e "Pedagogia para uma Sustentabilidade"

 

arqa: Tendo em conta a sua investigação na área da ecologia urbana e social ou do "ecodesenvolvimento", em que sentido lhe interessa no seu trabalho a ideia de sustentabilidade? Como definiria sustentabilidade?

Jacinto Rodrigues: A sustentabilidade tem sido usada nos mais variados sentidos: na maior parte dos casos ela é entendida como um conceito contabilístico, um processo técnico. Isso torna-a vazia de sentido. Sob o ponto de vista ecológico, a noção de sustentabilidade tem um sentido muito mais amplo. Ela tem de ser entendida numa relação sistémica e de pensamento complexo. Assim, a sustentabilidade só tem sentido quando estiver ligada ao conceito de ecologia. Muitas vezes os políticos usam a palavra sustentabilidade sem a inserirem nessa relação biosférica. Perde assim o carácter epistemológico ruptural que só pode ser revelado nas relações complexas entre sociosfera, tecnosfera e biosfera. Então, só desta maneira poderemos revelar as contradições e as patologias geradas pela intervenção humana no seio do planeta. Para haver sustentabilidade ecológica é portanto necessário que haja um ecodesenvolvimento e uma ecotecnologia que não coloquem em perigo a regeneração biosférica para que os ecossistemas não entrem em ruptura. Ora o crescimento económico, tal como tem vindo a ser realizado, ou seja, na base de uma tecnociência devastadora e num processo civilizacional de injustiças sociais, gerou esgotamento, contaminação e exclusão social. Para contrariar esta tendência, teremos que constituir um outro processo civilizacional. E esse processo civilizacional, para ser ecologicamente sustentável, tem que realizar, em 1º lugar, o decrescimento das energias fósseis preservando os bens naturais; 2º fazer a reciclagem dos "lixos", tornando-os nutrientes num novo processo do metabolismo circular, específico dos ecossistemas; 3º promover o fim da exclusão social através da cooperação social e do entendimento intercivilizacional. Trata-se de substituir o modelo urbano-industrial maquinista e entrópico por um modelo ecossistémico capaz de articular harmonicamente negentropia e entropia.

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Mar 2010

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