arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Entrevista

por: Luís Santiago Baptista e Margarida Ventosa

Mário Caeiro

Designer, Docente ESAD-CR, Comissário "Lisboa Capital do Nada", "Luzboa", "Efémero. Criação. Acontecimento", "Skyway".

arqa: Tendo em conta o seu trabalho como comissário, desde Lisboa: Capital do Nada» até à Luzboa, passando pela conferência Efémero. Criação. Acontecimento, em que sentido lhe interessa a ideia do efémero?
Mário Caeiro: Não consigo pensar o efémero sem o articular com outras ideias. O efémero tem um interesse positivo precisamente quando entra em tensão criativa com ideias como as de oportunidade, situação, contexto, participação, visibilidade, comunicação ou intervenção. Aprendi com o tempo que o efémero é a categoria que me permite recuperar e actualizar, na praxis, aspectos das posições críticas que me parecem mais válidas na contemporaneidade. Umas mais recentes que outras: desde o que Paul Ardenne denomina "arte contextual" ao que Bourriaud celebrizou como "estética relacional"; do que Debord havia proposto como abordagem da "situação" ao que Beuys avançou como "escultura social". Nesta genealogia de modelos - hoje uma imensa plasticidade do social protagonizada por Suzanne Lacy, Thomas Hirschorn, Wochenklausur ou Platform - a consciência da dimensão efémera é a ideia-chave que define o sentido de sempre novas situações, novos contextos e novas relações. Nela, o criador é um context provider, mais do que um object provider (Kester, citando o artista Peter Dunn). Ora é quase sempre sob o signo do efémero que são fomentados, no próprio espaço da cidade, contextos de produção de imagens e experiências capazes de contrapor ao quotidiano reificado uma hipótese de consciência crítica, tão intensa quanto profunda. O filosofar político do efémero parece implicar uma estética própria (Christine Buci-Glucksmann, Catherine Grout). Especificando, destaco dois aspectos que no efémero motivam a minha actividade curatorial. Primeiro, a ideia de efemeridade em si - da vida, dos espaços, dos contextos - enquadra a tomada de consciência do eu - e meu e qualquer outro - como um eu em contingência, socialmente determinado. Neste sentido, a compreensão do sentido do efémero abre-nos para uma dimensão do eu mais envolvida e menos egótica, entendida como relação e processo. Prefigura uma constante revisão do saber, da técnica, da moral, na temporalidade concreta da existência. Numa altura em que os meios de comunicação aceleram a civilização em direcções que o intelecto tem dificuldade em abranger, o efémero contrapõe uma pedagogia do conhecimento, um cuidado (ainda Buci-Glucksmann) que pessoalmente articulo com os valores da atenção e do envolvimento, duas faces de um ethos existencial que tende a transformar os projectos em dispositivos de percepção, valorização e promoção do efémero. Segundo, o efémero, enquanto categoria instrumental, está na base de uma abertura ou disponibilidade para a interpretação imaginativa das possibilidades de intervenção urbana. O efémero conduz ao acontecimento. Interpelação crítica da vida a ser vivida, dos espaços a serem desenhados e dos contextos a serem problematizados, o efémero-acontecimento é uma categoria compósita cuja validade ultrapassa a da dicotomia efémero/permanente. Nestes termos, o efémero recorta um valor cultural pleno, que ao mesmo tempo implica e exige, ao nível da intervenção no território, uma metodologia específica. O efémero integrado no projecto assenta na experimentação, no risco, na imponderabilidade, numa co-presença que é durabilidade de um mundo comum (Grout). Assim promove a imaginação, uma imaginação partilhada que é exigência de razão (Marcuse) e alternativa pedagógica às imagens mortas de uma paisagem e de uma experiência cultural reificadas. Face ao ritmo civilizacional e ao paradigma comunicacional vigente, um efémero construído como imaginativo tecir do urbano é condição sine qua non para a sua vitalidade. Em suma, o efémero revela, na razão do projecto, determinadas dimensões do território (fluxos, ritmos, momentos, imagens, fragrâncias, possibilidades...) que, na sua efemeridade (na sua finitude programada como na sua dimensão cíclica, na sua fragilidade ontológica como na sua intensidade comunicacional), definem o convite dialógico (Grant H. Kester). Integrar o pensamento do efémero no projecto transforma-o num veículo mais apto a integrar a complexidade e a contradição (Venturi) da cidade em tempo real. Este mesmo efémero permite que os projectos mais atentos componham com o real uma presentificação problematizadora - e potencialmente emancipatória (Jacques Rancière) - do dispositivo urbano. Da própria urbanidade como território do debate político, de actualização consciente da vida social, da intimidade mais ou menos visível ou partilhada, tal como traduzidos nas afinal sempre efémeras formas urbanas. Muitas vezes de forma evidente, temos então uma arte da cidade assinalando os seus pontos críticos e promovendo momentos de urbanidade para além dos mecanismos duros e cegos das infra-estruturas, da gestão corrente, da sociabilidade institucionalizada. Temos outro tipo de mo(nu)mentos, no quadro de um urbanismo geral (Giulio Carlo Argan) capaz de integrar a dimensão do tempo e do fluxo. É no terreno do efémero que o sentido faz mais sentido.

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Jan 2010

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