arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Entrevista

por: Luís Santiago Baptista e Margarida Ventosa

Giovanni la Varra

Arquitecto, Docente Politecnico di Milano, Membro URB&COM, Multiplicity, Colaborador USE, Curador "Ocasional Cities. Post-It City"
arqa: Tendo em conta a sua investigação teórica e projectual e participação em projectos como Multiplicity, USE e Post-It City, em que sentido lhe interessa no seu trabalho a ideia do efémero?
Giovanni la Varra: Com a Post-it City (G. La Varra, «Post-it City: The Other European Public Spaces», in Mutações, Actar, Barcelona, 2000) há anos que tenho vindo a explorar a possibilidade de perceber o modo como as cidades produzem e reagem ao fenómeno da ocupação temporária. Começando, acima de tudo, pelos espaços públicos. Parece-me que nos últimos anos se radicalizou um contraste crítico entre dois modelos de espaços públicos. Por um lado, a presença cada vez mais penetrante das grandes instalações para comércio e entretenimento ("arquitectura de entretenimento" como foi definida por Wim Wenders, por analogia com o cinema de entretenimento) tem garantido, de forma crescente, uma provisão de espaços públicos protegidos, programados e intergeracionais. A grande profusão de centros comerciais ou de grandes outlets nas cidades europeias deu uso, sem esforço, a um imaginário estabelecido: redes de estradas, ruas e praças que mimificam "in vitro" a textura dos já existentes centros urbanos. Por outro lado, em resposta a esta invasão agressiva, os espaços públicos tradicionais das cidades europeias começaram a repensar-se: enquanto que os centros comerciais copiaram os centros urbanos, estes últimos (em declínio, abandonados pelos locais e ocupados pelas populações marginais) começaram a repensar-se ao copiar os centros comerciais. Houve uma inversão do imaginário que, em poucos anos, assistiu a uma "centro comercialização" dos quarteirões antigos da cidade: em Marselha ou Lisboa, Milão ou Munique, os centros urbanos têm cada vez mais o aspecto de centros comerciais, também em termos dos bens e serviços que são providenciados. Em poucos anos, nas cidades europeias, o modelo do centro comercial ocupou todo o espaço disponível e tornou-se no cenário de qualquer acção num espaço público. No entanto, à volta desta grande ofensiva, nos intervalos dos espaços não convertidos, nas esquinas que não sofreram o impacto dos grandes investimentos imobiliários, proliferou uma outra noção de espaço público. Temporários, fracos, errantes, voláteis, como os post-its que usamos nos nossos livros (para enfatizar, esconder ou tirar notas), estes espaços temporários ramificaram-se nas cidades para dar novo significado aos lugares que estavam disponíveis para albergar acções que, de outro modo, não teriam lugar num espaço urbano. Como os post-its, estas acções aparecem e desaparecem, não deixam rasto, não têm relevância para as transformações duradouras, não se inscrevem em pedra e não interferem com as políticas públicas. Para as observar tem de se entrar em mútuo acordo e, de alguma forma, participar na sua dinâmica. A Post-it City (exposição organizada por G. La Varra, M. Peran, F. Poli e F. Zanft no CCCB em Barcelona em 2008) apresenta uma selecção destas situações, formas de auto-organização das populações (jovens, idosos, estrangeiros) que adoptam um espaço, identificam o seu potencial para a sua vida em público, modificam-no ligeiramente e temporariamente e depois abandonam-no para se mudarem para outra zona quando as condições originais já lá não se encontram. É uma forma de estado social faça-você-mesmo. Não há manifesto politico mas uma visão, uma oportunidade no espaço da cidade, e estas coisas formam-se e desfazem-se em períodos variáveis de tempo. Uma das características mais interessantes deste fenómeno é que, ao contrário de num passado recente, não se trata de fenómenos que só estão relacionados com uma população marginal, mesmo se esta continua a ter um papel importante na construção de espaços temporários e auto-organizados. Os espaços Post-it são vislumbrados por populações de diferentes culturas e histórias, pessoas que não rejeitam, necessariamente, o resto da cidade (a "centro-comercializada") mas que cartografam a sua vida em público movimentando-se entre uma e outra: durante o dia nos outlets e à noite à luz de uma estação de serviço fechada.

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Jan 2010

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