
Adequabilidade. Sensibilidade e bom senso. Utilidade. Uma questão de medida e de grandeza. Em 30 anos a acção e a intervenção mudou, mas não a atitude. Vive-se a emoção da criação e da realização, numa verdade para além da vida. Siza possui uma capacidade de extravasar para além da acção básica da intervenção do arquitecto na logística da resolução de programas, para acrescentar mais valias à execução material da forma alcançada e constituir-se como novidade em obra de autor. Até aqui nada de novo. Tudo já se referiu a Siza e se lhe atribuiu em conotação e denotação. Estas suas palavras ditas na primeira pessoa soam a sinceridade confessa de quem gosta do que faz. Aqui ninguém disse nada por si, ninguém o interpretou, ninguém o conotou a nada. E o mundo mudou muito desde 1977 longínquo ano pós revolucionário onde tudo seria de novo, novo. Siza refinou-se muito, depurou-se, acrescentou as mais valias que o mundo quis, tornou a sua forma de trabalhar evidente e sincrética. E os desenhos são muito luminosos, evanescentes e claros, numa evidente memória associo-os aos de Jean Cocteau, a Duffy, a Picasso. Porque há sempre homens a habitar os desenhos, os cenários antecipados, as realidades já memorizadas. Uma questão de medida. Que confortante à ler um ateu (?) a falar da grandeza do espaço sagrado de Marco de Canaveses, ao qual a Igreja no seu seio acolheu uma obra maior, nessa porta imensa de abertura à elegância da forma. Fico neste livro com a abertura de conhecer uma obra que se quererá afectar ao reconhecimento e enquadramento desta atitude de Siza sobre a transcendência, de Nuno Higino, padre no Marco de 1988 a 2001 e cuja tese de doutoramento em filosofia assumia a tema: os desenhos de Álvaro Siza; uma leitura a partir de Jacques Derrida. Mas talvez se entenda agora o seu desconforto em desenhar a Cruz. Numa das entrevistas significativas em 1997, salienta-se que ‘a dignidade se aplica a qualquer espaço, a beleza também', essa necessidade interna atemporal que qualifica a arquitectura enquanto arte. E tudo o mais, as louças, o mobiliário, as torneiras, são tocadas para o esplendor da forma permaneça e seja evidente num mundo (que conhecemos) seja mais. É de facto uma colecção de pensamentos ímpar, justa ao seu tempo, numa atitude e obra feita de compromissos, de generosidade, de sinceridade e de singularidade. De facto toda a obra de Siza tem sido singular, para nosso bem.
(…)Jan 2010

O homem cultural, que ao contrário dos animais que juntam, colecciona. Arte, dinheiro, amantes, desgostos, objectivos, experiências, dias e noites. Uma colecção dá sentido à vida, agarra-nos as posses…
Jul 2010

As cidades já não o são; são metapólis, flexiexistencialistas, absorventes, indiferentes. O divórcio do cidadão com a sua cidade começou com a aceleração da comunicação e da mobilidade. A…
Jul 2010