arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Design

por: Carla Carbone

Pedrita

O elogio da memória

Quando nos deparamos com uma peça como "Primavera", da dupla Pedrita, confrontamo-nos com a temática, inevitável, dos três níveis cognitivos e/ou emocionais, tratados em design, e assentes nos objectos.
Como se sabe, os níveis cognitivos são três e em design podemos classificá-los do seguinte modo: design visceral, design behaviorista e design reflexo. De todos eles, a peça "Primavera", constituída por uma andorinha, posiciona-se no terceiro dos três níveis, o nível reflexo, que se caracteriza por enveredar pela satisfação pessoal, pela auto-imagem e a memória.
É no nível reflexo que "os níveis mais elevados de emoção e cognição se situam". Só neste nível é que se sente a influência do pensamento e das emoções. Nos níveis inferiores não há lugar para a interpretação e consciência.
A interpretação e o entendimento provêm do nível reflexo.
Norman diz-nos que é este nível, o reflexo, o interpretativo, "o mais vulnerável às variações de cultura, experiência, educação e diferenças individuais". Aqui entra a primeira reflexão sobre a "Primavera" dos Pedrita. Na realidade a Modernidade e a Tecnologia trouxeram o esquecimento, e até o desdém pela cultura popular. A andorinha em cerâmica dos Pedrita, coberta por um vidrado negro, recupera por isso a apreciação destas formas populares e do folclore. Quem não se lembra das andorinhas, normalmente cópias de Bordalo Pinheiro, negras e solitárias, que cobriam os muros e as paredes caiadas? A andorinha da dupla Pedrita desperta a urgente discussão sobre "as memórias que os objectos evocam".
Ora a andorinha da dupla evoca essas memórias dos objectos em cerâmica que povoaram as habitações das pessoas e pontilharam alguns dos muros dessas habitações.
A elas, depois de uma modernização dos espaços, foram associadas características de mau gosto, e ao conhecido epíteto de Kitsch. Quem se lembraria de decorar as suas casas com objectos tão obsoletos como andorinhas e pinguins negros sobre o frigorífico?
Como se sabe o design industrial e as suas políticas de subordinação à produção em massa trouxeram o repúdio pela decoração e à rejeição das emoções que os objectos decorativos podem despertar/suscitar.
A andorinha, tal como o pinguim, pertencem àquela categoria de objectos que não precisam de cumprir um papel behaviorista para se evidenciarem, existirem e darem sentido às vidas das pessoas. Como nos diz Norman, os objectos que se classificam como pertencendo à categoria de design reflexo estão sujeitos, e estão mais vulneráveis, à "variabilidade da cultura, à experiência, à educação, e às diferenças sociais e individuais". Um qualquer comentário intelectual que impôs que o mobiliário e as casas não poderiam ostentar ornamento, colocou estes objectos muito próximo da sua extinção e arredaram da vida das pessoas a oportunidade para viverem em harmonia com as emoções, em harmonia com as memórias, intrínsecas ao ser humano. Essa extinção dever-se-ia ao facto de os mesmos objectos não integrarem em si níveis como os viscerais e os behavioristas.

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Jan 2010

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