arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Crítica

por: Gonçalo Furtado

Transitoriedade, Flexibilidade e Mobilidade...1

A necessidade de ponderar a condição contemporânea e um resvalar para a a-política

0 - Vivemos num contexto pós-industrial, global e digital, caracterizado pelo consumo frenético que dita qualquer dimensão humana à transitoriedade e pela mais-valia da flexibilidade. Também um contexto em que se instaura a mobilidade e o carácter globalizador como imperativo e um contexto pós-industrial da informação onde se transformam as distinções convencionais entre natural-artificial e físico-virtual.
Este mundo, que lança prenúncios de efemeridade, transitoriedade, mobilidade e desaparecimento abala profundamente as premissas da arquitectura, que desde sempre foi vista como arte de construir associada à estabilidade.
Esta flexibilidade generalizada, a nosso ver, está expressa numa arquitectura caracterizada pela transitoriedade, desde logo presente no fenómeno da "independência da fachada", que pode ser compreendida a partir de uma reflexão acerca da nossa condição pós-moderna.
Conceitos como "desaparecimento" (Virilio) ou "arquitectura líquida" (Solá-Morales) parecem também dar conta do dinamismo da condição cultural e económica em que vivemos. Ocorre uma "desmaterialização" que veio-vem anunciada por aparências leves, na ambição de adaptatibilidade e flexibilidade-transitoriedade, e na instauração do nomadismo contemporâneo que generaliza a experiências deslocada. Ocorre também uma transformação da ideia estável de espaço arquitectónico que, pela importância decisiva, não pode deixar de mobilizar a crítica arquitectónica.
1 - A nosso ver, os prenúncios de flexibilidade vêm, como referimos, anunciados no campo cultural e arquitectónico.
A cultura actual, assente na instabilidade, efemeridade e renovabilidade, é caracterizável pelo dinamismo mediático, pelo zapping (rápida mudança de canais) e pelo surfing (saltitar da comunidade dos cibernautas) que vê na rede um suporte para a sua recriação contínua.
Esta cultura expressa-se também no espaço construído que toma como requisito a reutilização, sugerindo uma arquitectura mutante, efémera, participativa, interactiva, aberta e em constante transformação.
Uma cidade mutante e transitória, que muda de vestimenta constantemente, reflecte-se na atracção pelos eventos contemporâneos que posicionam a produção arquitectónica como um espectáculo para consumo. Os próprios espaços de vida arquitectónicos e urbanos contemporâneos, do ponto de vista económico ao estético, não parecem ter como objectivo a solidez, assumindo formas flexíveis e transitórias.
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Jan 2010

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