

A questão geracional na arquitectura portuguesa contemporânea tem-se revelado um tema polémico. De facto, gerou e continua a gerar posições vincadamente afirmativas e antagónicas, as quais não serão indiferentes à pressentida agudização das cisões disciplinares do nosso panorama crítico. Por isso, a questão tem permanecido numa espécie de limbo. Apesar do silêncio em torno do tema, acreditamos que esta questão é hoje determinante para compreender a realidade da prática arquitectónica. Tendo consciência dos riscos de desenvolver um tema quente, nomeadamente da eventualidade do debate se ficar por uma troca de acusações ou por uma indiferença forçada, estamos convictos que o "dispositivo" geracional continua a ser o instrumento mais adequado para captar as mudanças estruturais na actividade dos arquitectos portugueses. No entanto, é importante salientar que não nos move qualquer desejo de polémica para acentuar divisões disciplinares, que em nada contribuem para um debate necessário. Por isso, o primeiro passo passa por tentar perceber os obstáculos a uma discussão mais profunda. No nosso entender, existem duas ideias que o têm impedido. Se, por um lado, a questão geracional resvala facilmente para uma dicotomia entre arquitectos jovens e consagrados, por outro, revela uma propensão para lógicas dicotómicas de ruptura ou continuidade. Em primeiro lugar, a recepção disciplinar da temática geracional tem sido marcada pela ideia de conflito entre arquitectos jovens e consagrados. Se as posições mais apologistas salientam a novidade das práticas emergentes, reflectindo-a na suposta caducidade dos modelos dos arquitectos estabelecidos, os detractores reclamam a sabedoria sedimentada dos mestres perante a pretensa insignificância da obra dos novos ateliers. Acabamos por ter a sensação de que quando se fala em diferenças geracionais, o menu tende a reduzir-se a uma afirmação ingénua de promessas ou a uma validação segura de confirmações. Mas será o confronto entre novos e velhos a forma adequada para debater as questões geracionais? Teremos que continuar a vê-las como um campo de batalha pela relevância disciplinar? Em segundo lugar, a temática geracional tem sido entendida segundo uma lógica dicotómica entre ruptura ou continuidade. É verdade que toda a questão geracional se constitui nessa dualidade entre uma vontade de ruptura e um horizonte de continuidade. Mas, tal como o pensamento moderno instituiu e do qual ainda somos devedores, só conseguimos pensar nessa dicotomia em termos absolutos. Ou nos concentramos nos processos sequenciais de ruptura, os ditos de vanguarda, ou nos focamos nos movimentos convergentes de continuidade, os de natureza historicista. A verdade é que ambas as posições estão regidas por uma mesma lógica teleológica, entendendo a história como um processo linear e sequencial. Mas fará sentido dividirmo-nos entre promotores da ruptura e defensores da continuidade? Não existirá um espaço mediador em que lógicas de ruptura e continuidade não se excluam ou neutralizem mutuamente? Perante os problemas levantados, acreditamos que analisar as diferenças geracionais não tem que implicar nem uma cisão absoluta entre arquitectos de gerações diferentes, nem uma oposição auto exclusiva entre lógicas de continuidade e ruptura. Mas, se não tem que determinar juízos apressados e peremptórios sobre aqueles que produziram, continuam a produzir ou começaram a produzir obra relevante, a lógica geracional não deixa de conter por natureza o gérmen do conflito. Mas a génese dessa conflitualidade estará menos nos arquitectos em si, e consequentemente na qualidade específica das suas obras, e mais naquilo que envolve e determina a sua actividade. Isto é, as diferenças geracionais podem ser percebidas a partir da exigência de adaptação e resposta efectiva a uma realidade produtiva e profissional dinâmica e instável. Neste sentido, as práticas arquitectónicas emergentes podem ser compreendidas mais como sintomas do que agentes, mais como efeitos do que causas.
(…)Dez 2009

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