

"As coisas sempre se manifestam segundo alguns aspectos indiscerníveis"
João Maria Gusmão e Pedro Paiva
Convenhamos que entre a prática artística e a pesquisa de acontecimentos enigmáticos há uma estreita e ancestral ligação. Mais do que qualquer outro fenómeno, a própria arte é, em última análise, a expressão do indiscernível, sempre inconclusiva e verdadeiramente inalcançável na sua totalidade. A associação entre os dois universos traduz-se assim, desde logo, numa espécie de complexa cumplicidade. A ambiguidade do sentido, a obscuridade poética ou o estranhamento significacional, bem como a pluralidade de leituras sobre o desconhecido e a sua repercussão configuram um património de hipóteses, especulação e liberdade interpretativa que amplia decisivamente a nossa condição humana. No fundo, é para isso que serve a arte, para criar domínios de outra forma insondáveis ou não revelados.
Neste sentido, enigma e ficção, para-ciência, patafisica e outras diatribes reflexivas conduzem desde sempre o trabalho artístico de João Maria Gusmão e Pedro Paiva. O objectivo é acentuar o restabelecimento da magia e da experimentação sobre a inacessível verdade de todos os tempos e de todas as matérias do cosmos. Esse encontro inevitável, isto é, o rendez-vous entre a arte e os fenómenos indiscerníveis, resulta nesta dupla de artistas de um modo eficaz, questionando ao mesmo tempo os universos da arte e da ciência. Eles recuperam assim uma tradição intelectual que no século XIX levantou a suspeita sobre a racionalidade e sobre o domínio esmagador da ciência na configuração das nossas crenças contemporâneas.
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