arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Artes

por: David Santos

Candida Höfer

A Europa em Portugal e outros vestígios

"As suas fotografias homenageiam um conceito de comunidade humana determinado historicamente, frágil, e sempre ameaçado. A sua câmara,as suas exposições prolongadas, e o seu olhar interminável são ainda pontos num mundo em mudança, eternizando (tal como a própria arquitectura) aquilo que foi, e aquilo que será, transitório."

Shelley Rice

Na origem da fotografia está a sua dupla condição genética, isto é, ela é sempre, ao mesmo tempo, documento e estética, ainda que nem sempre por esta ordem. Não há volta a dar, a fotografia nasceu de um profundo desejo de apropriação sobre o real, resultado do engenho humano e das descobertas científicas verificadas no início do século XIX. Para além da vontade de registar e recriar o que os olhos podem ver, a fotografia representou sempre uma espécie de assombrosa conquista sobre o domínio do espaço e do tempo, sendo essa, talvez, a sua maior e mais brilhante ilusão. Documentar ou estetizar o real que a máquina regista - acabando assim, invariavelmente, por se firmar como documento - apareceu ao ser humano como a via mais óbvia deste novo sistema de significação imagética, mantido até hoje, apesar de todos os desenvolvimentos analógicos ou digitais, entre o real e a sua interpretação.
Ora, o trabalho de uma artista como Candida Höfer não só confirma como amplia de um modo singular esta dimensão dialéctica e epistemológica da imagem fotográfica. A artista alemã estudou fotografia desde cedo em estúdios privados e, pouco depois, na Kunstakademie de Dusseldorf.
De início, dedicou-se ao Cinema, com Ole John, para se fixar definitivamente na Fotografia, com Bernd Becher. Nas últimas duas décadas, o trabalho fotográfico de Candida Höfer foi exposto em museus como as Kunsthalle de Basileia e Berna, o Portikus, de Frankfurt, a Kunsthalle de Hamburgo, o Power Plant de Toronto, ou o Museu do Louvre, em Paris, tendo participado igualmente em algumas das mais importantes mostras colectivas dos últimos anos, no MoMA de Nova Iorque, na Kunsthaus Bergenz, no Museu Ludwig, de Colónia, no Centro de Artes e Multimédia de Karlsruhe, no Museu de Arte Moderna de Paris e no Museu de Arte Contemporânea de Kumamoto, no Japão, e, em 2002, na Documenta 11, em Kassel. Em 2003, a artista representou a Alemanha na Bienal de Veneza, em conjunto com o já desaparecido Martin Kippenberger.
Desde as suas primeiras séries de imagens simétricas e hieráticas sobre Palácios, Igrejas, Auditórios, Bibliotecas, Teatros, Museus e outros espaços públicos, que Höfer soube como poucos desenvolver o carácter pictórico que as fotografias de grande escala podem proporcionar. Com efeito, a imagem fotográfica viu reforçado o seu estatuto museológico quando pode finalmente ombrear em termos dimensionais com a escala da grande pintura. A partir do final dos anos 80, a fotografia conquistou, de uma vez por todas, o seu lugar nas grandes exposições de arte contemporânea, penetrando simultaneamente no circuito mundial de exibição, comentário crítico e musealização. Candida Höfer foi, seguramente, uma das artistas que mais contribuiu para este caminho de paridade entre a fotografia e as outras disciplinas, ou experiências interdisciplinares, da arte dos nossos dias.

 (…)

Out 2009

Outros artigos em Artes

Imagem - Pedro Cabral Santo

Pedro Cabral Santo

A questão do devir da linguagem atravessa desde sempre, com coerente persistência, o percurso intelectual e a obra artística de Pedro Cabral Santo. Da instalação ao vídeo, a sua… 

Jan 2012

Imagem - Nuno Sousa Vieira

Nuno Sousa Vieira

Estabelecer a relação com o outro, experimentar a ausência e repensar a condição física e visível da arte. A propósito da mais recente exposição de Nuno Sousa Vieira, Somos… 

Jan 2012

Arquivo de Artes