arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Editorial

por: Luís Santiago Baptista

Performances Artísticas

A natureza processual e conceptual da contaminação entre arte e arquitectura

É um facto indesmentível deste início de milénio a exponencial hibridização entre as diversas disciplinas criativas, desde as artes plásticas até à arquitectura, passando pelo multifacetado design. Mas em que termos podemos falar de contaminação entre estas práticas?

Apesar de ser um fenómeno irreversível da contemporaneidade, pouco se tem falado acerca das razões e condições do crescente contacto disciplinar a que vamos assistindo. Na verdade, quando se refere a relação entre arquitectura e arte parece existir não só uma dificuldade estrutural em estabelecer os fundamentos dessa conexão como uma indefinição categórica em relação ao próprio campo e consequentemente às fronteiras das diferentes disciplinas.

No entanto, os factos são em si mesmos elucidativos, tanto ao nível da concepção do objecto arquitectónico como da prática do arquitecto. Em primeiro lugar, o objecto arquitectónico tem vindo a adquirir o estatuto de verdadeira obra de arte, tornando-se com naturalidade o ícone criativo da contemporaneidade. Por um lado, a competição entre os campos da arte e arquitectura, entre produção artística e espaço arquitectónico, pode ser vislumbrada desde logo na concepção afirmativa e espectacular dos novos museus contemporâneos. Por outro lado, as novas conexões entre o campo arquitectónico e o mundo empresarial, cujos produtos de luxo cada vez mais procuram assumir uma dimensão artística, têm levado à realização de algumas das experiências mais surpreendentes da arquitectura recente, como o revela o trabalho dos arquitectos do star-system para grandes marcas da moda, como a Prada, a Chanel ou a Cartier, ou mesmo para o ramo automóvel, como a Mercedes, a BMW ou a Porsche.

Seja no território específico da indústria cultural ou no campo alargado da realidade corporativa, a arquitectura contemporânea tem assumido cada vez mais claramente o papel de verdadeira protagonista. Em segundo lugar, o arquitecto tem expandido a sua esfera de acção profissional, extravasando o campo disciplinar tradicional da arquitectura. Alguns arquitectos revelaram uma aproximação consistente às práticas criativas desenvolvidas pelos artistas contemporâneos. Na verdade, a exploração delirante do “peixe” de Gehry, os desenhos abstractizantes de Libeskind, as estratégias textuais de Koolhaas, os diagramas filmicos de Tschumi, as performances corporais dos Coop Himmelblau, os modelos conceptuais de Eisenman, as pinturas dinâmicas de Zaha Hadid, as gravuras sensoriais de Steven Holl e as lógicas expositivas de Herzog & de Meuron não podem ser dissociados dos seus programas arquitectónicos, funcionando como catalizadores processuais e conceptuais das propostas radicais destes arquitectos.

Mas, além dessa aproximação às estratégias criativas da arte contemporânea no âmbito do projecto, alguns arquitectos têm multiplicado igualmente os seus espaços de afirmação profissional. Cada vez mais os arquitectos repartem a sua actividade em múltiplas actividades que os aproximam do domínio artístico, podendo ir da prática profissional da arquitectura até ao desenvolvimento de projectos propriamente artísticos, passando ainda pela produção teórica e crítica e mesmo pela curadoria de exposições e eventos. Em suma, no âmbito da relação da arquitectura recente com a arte contemporânea, observa-se tanto uma contaminação do projecto pelas práticas artísticas como uma expansão do campo de acção do arquitecto para o território da arte.

 (…)

Nov 2008

Outros artigos em Editorial

Imagem - Influências ficcionais

Influências ficcionais

1. Em 1985, Peter Eisenman apresentava na 3ª Biennale di Architettura di Venezia o estranho projeto Moving Arrows, Eros and Other Errors. O arquiteto americano, como arauto máximo da… 

Jan 2012

Imagem - GERAÇÃO Z #3

GERAÇÃO Z #3

O programa curatorial geração z encontra agora o seu último ciclo de exposições geração z #3.1 Depois de perto de 20 cadernos e 3 ciclos de exposições e conferências,… 

Dez 2011

Arquivo de Editorial