Como estrangeiro tive o meu primeiro contacto com o Aqueduto no filme Lisbon Story, de Wim Wenders. Já aí nos apercebíamos da sua importância, mas também do papel incerto que desempenha no quotidiano da cidade. A sua forte presença marcou-me, ainda mais, quando cheguei a Lisboa, mas a sua função real permaneceu um mistério. Durante a minha estadia comecei a explorar, cada vez mais, os seus significados ocultos mas o sistema do Aqueduto mantinha os seus segredos no que dizia respeito às funções que desempenhava e à situação em si.
Esta ambiguidade da noção Aqueduto das Águas Livres - à primeira vista temos os arcos do Aqueduto sobre o vale de Alcântara e o resto da rede aparece e desaparece por cima e por debaixo do solo - também caracteriza o nível de consciência das pessoas que habitam a vizinhança.
Os mais de 50 quilómetros de comprimento do sistema de redes traçam um corte interessante da Área Metropolitana de Lisboa. Atravessa terrenos, paisagens agrícolas, estradas, campos, zonas periféricas, terrenos baldios, apresentam-se, por vezes, zonas de alta densidade residencial, às vezes mostrando-se outras revelando-se apenas através das pequenas condutas de ventilação. Esta natureza que mistura o subterrâneo com a superfície também contribui para o seu mistério.
O sistema que começou por abastecer a cidade de água foi, posteriormente, posto à margem na segunda metade do século XX transformando a obra-prima de engenharia numa mera atracção. Originalmente, a sua utilização para fins sociais - eventos, casamentos, cerimónias - era, também, uma importante característica que foi abandonada. É esta característica através da qual podemos explorar um caminho para encontrar um papel no nossos dias.
A realização deste workshop é o resultado de uma curiosidade marcante de Marc Latapie que se foi tornando mais forte durante a sua estadia em Lisboa. Este interesse tenaz também se pode explicar pelo facto de ter chegado do estrangeiro.
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