A questão está longe de ser pacífica. Ao propormo-nos fazer um número especial da arq|a sobre críticos arquitectos portugueses sabíamos de antemão que a questão da definição conceptual seria altamente problemática. Os arquitectos, qualquer que seja o âmbito da sua actividade, são arquitectos, ponto! Isto é evidente e inquestionável. Mas pressentimos que algo está a mudar na ligação entre a crítica de arquitectura e a prática arquitectónica. No contexto mundial da arquitectura contemporânea, a profissão tem-se dividido cada vez mais entre arquitectos praticantes com ateliers que são autênticas máquinas produtivas, professores fechados nas academias em investigações puramente disciplinares e conferencistas, curadores e editores a circular ininterruptamente pelos circuitos internacionais em torno das grandes instituições e eventos da arquitectura. Perante o aumento e aceleração das solicitações específicas de cada campo disciplinar, o cruzamento entre a teoria e a prática e o atravessamento entre a crítica e o projecto parecem estar em progressivo desaparecimento. Inversamente, há muito que sentimos que no contexto português tem emergido uma quantidade relevante de arquitectos que se têm dedicado às actividades inerentes à crítica de arquitectura. É verdade que temos a este nível uma tradição influente, o que nos afasta de uma interpretação meramente circunstancial. De facto, na década de setenta, Nuno Portas apresentava-se como o modelo ideal do crítico arquitecto, conciliando de forma invulgarmente consistente um programa teórico, a actividade crítica, a produção editorial, a acção política e a prática arquitectónica. Outros o acompanharam e se seguiram. Efectivamente, as gerações posteriores de críticos arquitectos portugueses parecem seguir as vias abertas por esta tradição crítica determinante. A verdade é que, apesar da tendência internacional actual, os arquitectos portugueses têm resistido, eventualmente em virtude da condição marginal em relação aos grandes centros difusores da cultura arquitectónica contemporânea, a esse movimento global de especialização do campo profissional. Por razões de opção mas também de necessidade, os arquitectos críticos com atelier estabelecido e os críticos arquitectos com uma prática mais intermitente continuam a conseguir dividir a sua actividade por um campo alargado de solicitações, aproveitando contracorrente as possibilidades ainda existentes de uma complementaridade de interesses e práticas. Mas, mesmo tendo esta realidade em consideração, fará algum sentido falar de uma categoria disciplinar como o crítico arquitecto? Existe actualmente alguma especificidade nessa confluência de actividades teóricas e práticas? Para tentar responder a estas questões, lançámos, nos seguintes moldes, um desafio a um conjunto significativo do que podemos denominar de críticos arquitectos portugueses: "A revista arq|a vai apresentar um número duplo especial (Julho-Agosto) subordinado ao tema «críticos-arquitectos.pt». (...)
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