1. Já não é nova a ideia de que a tecnologia é essencialmente um fenómeno cultural determinante nas sociedades. De facto, se Martin Heidegger afirmava, em The question concerning technology, que a essência da tecnologia não era algo de tecnológico, Michel Foucault defendia que o fundamento da tecnologia era essencialmente político e social. No campo da arquitectura, esta concepção cultural da tecnologia, com os seus reflexos em todos os campos de actividade e implantação na realidade, ainda não foi devidamente interiorizada. Em termos disciplinares, a tecnologia continua a ser entendida como um instrumento produtivo neutro ou um meio expressivo inocente. A produção arquitectónica do UNStudio e do Menos é Mais afasta-se claramente dessa concepção ingénua da relação entre arquitectura e tecnologia. Com programas muito diferenciados, ambas as práticas investigam a natureza da apropriação arquitectónica da tecnologia. Se a dupla portuguesa explora projectualmente as tecnologias industriais modernas no sentido de investigar a nossa relação conceptual e perceptual com o espaço vivencial, a dupla holandesa apropria processualmente as novas tecnologias digitais com o intuito de potenciar a emergência de novas realidades arquitectónicas contextualizadas. Enquanto Francisco Vieira de Campos e Cristina Guedes desenvolvem propostas enigmáticas, recorrendo a lógicas tipológicas e morfológicas directamente conotadas com sistemas construtivos, Ben van Berkel e Caroline Bos propiciam a produção "diagramática" do projecto, a partir de uma negociação constante com o programa e contexto. Nestas duas práticas, a tecnologia é uma forma radical de interrogação dos fundamentos e papel da tecnologia nas sociedades contemporâneas, realizada através da produção de espaços arquitectónicos significativos.
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