arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Editorial

por: Luís Santiago Baptista

Mediações Tecnológicas

Entre o mundo físico e o campo digital

1. Em 1950, Mies van der Rohe afirmava: "a tecnologia é muito mais do que um método, é um mundo em si."1 Com isto, expressava a mudança radical do estatuto da tecnologia, entendendo-a já não simplesmente como um instrumento de resposta aos problemas concretos, mas como uma realidade própria que determina todos os domínios da actividade humana. De facto, a implementação da tecnologia não tem transformado simplesmente o meio físico, tem igualmente redefinido a ideia de sujeito. As profundas alterações na realidade material implicam importantes mutações na estrutura conceptual e perceptiva do indivíduo. Em primeiro lugar, a tecnologia industrial reformulou radicalmente a concepção do sujeito, algo que se manifesta tanto nas investigações cubistas e futuristas como na exploração dos novos meios da fotografia e do cinema. A "estética da velocidade" e o "homem multiplicado" de Marinetti, a "intensificação da vida sensorial" e a atitude "blasé" de Simmel, a experiência do "shock" e o sujeito "flaneur" de Benjamin apresentaram-se como reconfigurações do indivíduo moderno perante a implantação generalizada da tecnologia no espaço vivencial da metrópole. Posteriormente, a tecnologia digital haveria de provocar novas mutações na concepção do sujeito, pondo em causa a separação entre homem e máquina e o próprio estatuto da realidade. Estas interrogações manifestar-se-iam quer na figura híbrida do cyborg quer na noção ambivalente de virtual reality, ideias exploradas por Sterlac, William Gibson, Ridley Scott ou Cronenberg e teorizadas por Mcluhan, Deleuze, Baudrillard, Virilio ou Negroponte. Em suma, a tecnologia tem revolucionado de forma irreversível a nossa compreensão do espaço e de nós próprios, adquirindo um papel central na forma como entendemos e nos relacionamos com o mundo.  (…)

Mai 2009

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