arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Entrevista

por: Arq|a

ENTREVISTA a Nuno Mateus

"O LUGAR É SEMPRE UM CONTEXTO COMPLEXO DE CAMADAS SOBREPOSTAS
QUE TEM QUE SER DESDOBRADO E ANALISADO NAS SUAS MÚLTIPLAS DIMENSÕES."
arqa A arquitetura dá forma aos lugares. Configura os lugares, devido à transformação que esta
provoca, procedendo à metamorfose dos mesmos. Partindo dessa lógica, comentem a
metodologia seguida.
ARX Os lugares têm sempre alguma informação natural, de alguma forma ligada ao seu estado
original, anterior à chegada das primeiras construções. Essa informação pode estar mais ou
menos visível ou estar apenas latente. E essas construções podem ter sido mais ou menos
transformadoras, porventura ocultando e redefinindo essa dimensão base, sobretudo em
contextos urbanos de maior densidade. Mas ainda assim, mesmo nestes contextos, essa base
está lá, ela é anterior e funciona para além da arquitetura. Começamos invariavelmente por uma
pesquisa de leitura, com vista ao entendimento dessas características mais estruturantes e
definidoras dos lugares com os quais vamos interagir. Não necessariamente com a finalidade de
os transformar, mas de descodificar os seus sistemas, de encontrar o entendimento das suas
regras, que nos possam levar à consolidação e fruição desses espaços através da arquitetura
que lhes vamos adicionar. Procuramos a base justa ao assentamento harmonioso da
transformação que vamos operar, mesmo que ela se justifique ser mais subtil ou silenciosa. É
certo que nem sempre temos trabalhado em lugares claros, sejam eles de forte componente
natural ou eventualmente bem construídos e consolidados. Tem sido mais frequente aparecerem-
nos contextos fragmentados, mais complexos, como é comum em boa parte do nosso território
disperso e por vezes pouco organizado. Nestes contextos temos encontrado mais
frequentemente fundamentos para que a arquitetura seja mais estruturante e clarificadora, por
vezes mesmo reorganizadora desses lugares, (como me parece ser mais o sentido da pergunta),
sobretudo quando falamos de programas de natureza pública. Mas não é sempre esse o caso.
arqa O lugar é sempre uma preexistência: quais as bases da vossa interpretação do sítio?
ARX O lugar é sempre um contexto complexo de camadas sobrepostas que tem que ser
desdobrado e analisado nas suas múltiplas dimensões. Desde logo interessam-nos as suas

características naturais, que nos levam invariavelmente à constatação do facto de que estarmos a
intervir num sistema mais alargado, que devemos compreender previamente, de forma a poder
garantir deixar essa sua continuidade intacta, para que possa ser potenciada e fruída. Há, por
outro lado, as características físicas das transformações humanas a que este lugar foi
anteriormente sujeito, sejam de natureza agrícola ou construída, e que nos levam a ponderar
sobre o seu valor cultural intrínseco enquanto património humano, ao qual se pode ou deve
eventualmente dar relevo na resposta de projeto. Estas são provavelmente as constantes das
nossas abordagens prévias a qualquer lugar de projeto e em geral entendemos que é
responsabilidade básica da arquitetura saber fazer a ponte entre elas.
arqa No processo de pensar e construir objetos arquitetónicos as maquetas assumem-se como
ferramentas fundamentais de figuração, configuração e reconfiguração. Como se cruza o método
e o consequente processo nas obras dos ARX?
ARX As maquetas são desde logo objetos físicos e matéricos, construídos com uma técnica
específica, de acordo com determinadas escolhas de materiais. Nesse aspeto são muito
semelhantes aos edifícios e muito diferentes dos desenhos bidimensionais e dos renderings, que
sendo representações tridimensionais, também são impressos sobre papel plano. As maquetas
registam e emulam algumas características que estão próximas dos lugares naturais, do seu
edificado ou do pensamento num sentido mais lato. Podem por outro lado escolher suprimir
algumas outras características, porque são seletivas naquilo que escolhem representar.
O espectro de funções que a maqueta desempenha nos nossos projetos é muito alargado e varia
muito de projeto para projeto e das suas diferentes fases. Fazemos maquetas de esquisso, como
fazemos de detalhe. A sua presença nos nossos processos de projeto é impulsionada pelo
cruzamento cíclico com o desenho nas suas várias formas, sejam os esquissos iniciais, os
desenhos mais rigorosos ou os detalhes. Frequentemente é o desenho que impulsiona uma
determinada sequência de maquetas.
A muitos níveis e em certas fases do projeto, constatamos que os desenhos têm certas limitações
enquanto territórios de conceção e de representação, revelando-se por vezes substancialmente
opacos. Aqui, frequentemente, a maqueta consegue ser uma ferramenta mais eficaz, com um
maior alcance projetual, tanto em fases de teor mais conceptual, como mais adiante, em fases
mais verificadoras. Mas são ferramentas que para nós funcionam sempre de forma recíproca,
numa constante relação de simbiose. (...)

 (…)

Dez 2017

Outros artigos em Entrevista

Imagem - Entrevista a Gonçalo Byrne

Entrevista a Gonçalo Byrne

arqa - Como recorda o percurso dos dois irmãos Aires Mateus no seu atelier? Gonçalo Byrne - É um percurso muito longo (...),quando o Manuel e o Francisco vieram trabalhar… 

Jun 2017

Imagem - André Tavares

André Tavares

> Esta 4ª Edição da Trienal de Arquitectura de Lisboa assume uma forte dimensão disciplinar, uma vontade e desejo de recentramento da arquitetura. Tendo em conta o contexto atual… 

Dez 2016

Arquivo de Entrevista