arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Editorial

por: Vítor Neves | victneves@sapo.pt

(IN)VASÕES NA arqa | (IN)VASIONS AT arqa

O significado mais corrente da palavra “Invasão”,no singular é “entrar à força em”, ou “conquistar” ou “apoderar-se de”... Em sentido mais figurado pode ainda significar” difusão” ou “propagação”. O tema (In)vasões escolhido para este número da arqa pode, sem dúvida, sugerir várias coisas. É um tema suficientemente abrangente (como convém) para poder ser usado com significados diversos, embora alguns deles possam ser bastante assertivos, pelo menos no que toca à arquitetura ou à crítica de arte. Em particular, e em tudo o que inclua a noção de Contexto, o tema aplica-se de forma mais ou menos óbvia. Ou seja tudo aquilo que implica ENTRAR num espaço, numa estrutura ou num contexto, utilizando intencionalidade, força ou até abuso, pode-se entender como “invasor”. No entanto o prefixo (in) que se utiliza na escrita do tema (In)vasões, não é inocente. Acrescenta outros significados menos óbvios: aquilo que se introduz por dentro, que não se vê, ou aquilo que cresce por dentro, invadindo pelo interior, sem se anunciar, por exemplo. Significados que sugerem uma ação viciosa, clandestina, quiçá... Mas as hipóteses de significados possíveis, não se esgotam aqui, porque o prefixo também pode sugerir ações positivas e até desejáveis, se por exemplo for entendido como algo que tenha capacidade de influenciar positivamente um meio, nem que para isso seja necessário uma Acão intrusiva. Invadir implica muitas vezes derrubar barreiras, proteções, muralhas autênticas. E invadir implica também (quase sempre) a assunção do tempo, da mudança forçada : a história das cidades está cheia de decisivos episódios que são mudanças forçadas ,mas que acabam por ser em muitos casos verdadeiramente importantes para a construção da sua imagem e identidade. E a condição contemporânea, essa condição que freneticamente perseguimos, alimenta-se desses episódios. A arquitetura usa-os para se afirmar enquanto valor social e cultural ou quando pretende assumir-se como um fenómeno iminentemente político. A intervenção de Byrne em Leiria -um dos projetos publicados neste número - é um sugestivo nexemplo disso mesmo. É uma intervenção que deliberadamente se apropria do espaço para o reconverter, para levar a cidade para outro tempo. Espaço público e edifício invadem o coração da cidade numa “operação” que realinha e revigora o tecido urbano. Não deixa ser curioso que essa renovação se faça com um edifício cujo destino é uma academia sénior. Prova-se também que as “invasões” não têm de ser necessariamente caóticas apenas pelo facto de serem acionadas e pressionadas pela força. A intervenção de Nuno Brandão e Costa , no Porto, prova isso mesmo. O projeto plasma-se sobre o terreno, apropriando-se declaradamente dele e da cidade, mas faz isso através de uma geometrizarão muito regular que efetivamente ordena todo o espaço projetado e o que está à sua volta. As escalas das intervenções também podem ser muito variadas e a proposta da arqa passava exatamente por aí. Que capacidade têm as grandes intervenções para implementar uma nova organização do espaço físico e, já agora, do espaço social?. Até que ponto pequenos projetos conseguem o mesmo resultado? Até que ponto conseguem roturas renovadoras, alcançando o estatuto de elementos fundadores do espaço? O desafio lançado pela arqa também teve uma resposta adequada neste especto particular: Por um lado, tivemos projetos que assumem roturas de escala no território, caso por exemplo da intervenção de LCV em Veneza que força uma nova e imponente escala no tecido urbano, sem os complexos de uma “integração” visível, mas conseguindo, sem dúvida introduzir uma nova referência no contexto urbano próximo. E, por outro lado, as micro intervenções. Como por exemplo a de João Reino na Mouraria que, com um pequeno edifício nem pequeno lote, perfaz uma intervenção muito atenta e cuidada, que, no entanto, não deixa de ser uma “invasão” visual de um objeto contemporâneo, contrastante, num contexto marcadamente tradicional. De igual forma, a intervenção do coletivo Warehouse em Gotemburgo, sendo também uma intervenção de pequena escala, é excelente pela sua dimensão estética e plástica, conseguindo aliar os mundos da arquitetura e da arte urbana num diálogo que é cada vez mais usual nas cidades europeias, felizmente. Voltando à reflexão que iniciámos sobre o tema proposto para este número, as hipóteses de interpretação desse tema poderiam ser variadas: entende-lo a partir de intervenções que usem (invadam) estruturas construídas e existentes ou a partir de um conceito mais amplo e não restrito a estruturas construídas...ou seja, a invasão podia-se encarar como uma acão capaz de alterar qualquer meio, seja ele existente , edifício, malhas urbanas consolidadas ou mesmo meios rurais... ou ser encarado como um mero(importante) conceito ou estratégia de projeto. Tudo isto estava implícito na proposta que fizemos aos convidados para este número da arqa.

 

The most common meaning of the word “Invasion” in the singular is “to enter into force,” or “to conquer” or “to seize.” In a more figurative sense it may also mean “diffusion” or “propagation.” The theme (In)vasions chosen for this arqa issue can undoubtedly suggest several things. It is a sufficiently comprehensive theme (as it should be) to be used with various meanings, although some of them may be quite assertive, at least in architecture or in art criticism. In particular, the theme applies in a more or less obvious way to everything that includes the notion of Context. In other words, everything that implies ENTERING in a space, structure or context, using intentionality, force or even abuse, can be understood as “invader”. However the prefix (in) that is used in writing the our theme (In)vasions, is not innocent. It adds other less obvious meanings: that which is introduced into the inside, which is not seen, or that which grows within, invading within, without being announced, for example. Meanings that suggest a vicious, clandestine action, perhaps... But the chances of possible meanings, are not exhausted here, because the prefix can also suggest positive and even desirable actions, if understood as something that has a positive influence on a medium . Even if an intrusive action is required. Invading often involves breaking down barriers, protections, authentic walls. And to invade also implies (almost always) the assumption of time, of forced change: the history of cities is full of decisive episodes that are forced changes, but that in many cases they are really important for the construction of their image and identity. And the contemporary condition, this condition that we pursue frantically, feeds on these episodes. Architecture uses them to assert itself as a social and cultural value or when it intends to assume itself as an imminently political phenomenon. Byrne’s intervention in Leiria - one of the projects published in this issue - is a suggestive example of this. It is an intervention that deliberately appropriates the space to reconvert it, to project the city to another time. Public space and building invade the heart of the city in an “operation” that realigns and invigorates the urban fabric. And it curious that this renovation is done with a building whose destiny is a senior academy. It is also proven that “invasions” do not necessarily have to be chaotic, simply because they are triggered and pushed by force. The intervention of Nuno Brandão e Costa, in Porto, proves this. The project is spread onto the ground, claiming it and the city around, but it does so through a very regular geometry that effectively orders all the projected space and everything around it. The scales of the interventions can also be very varied and arqa’s proposal was exactly there. What capacity have the big-scale interventions to implement a new organization of physical space or social space? To what extent do small projects achieve the same result? To what extent do they achieve new breakthroughs, achieving the status of founding elements in the space? The challenge launched by arqa’s also had an adequate response in this particular aspect: On one hand, we had projects that take scale breaks in the territory, for example the intervention of LCV in Venice that forces a new and imposing scale in the urban fabric, without the complex of a “visible” integration, but able to introduce a new reference in the near urban context. And, on other hand, the micro-interventions. As for example that of João Reino project in Mouraria (Lisbon), making a very careful intervention with a small building or small lot which nonetheless remains a visual “invasion” of a contemporary, a contrasting object in a very traditional context. Likewise, the intervention of Warehouse collective in Gothenburg, also a small-scale intervention, is excellent for its aesthetic and plastic dimension, managing to combine the worlds of architecture and urban art in a dialogue that is increasingly common in European cities . Fortunately. Returning to the thought that we started with the theme proposed for this issue, the chances of interpretation of this theme could be varied: it could be understood as interventions that use (invade) built and existing structures or , as well, understood in a broader and not restricted concept to built structures ... that is, the invasion could be seen as an action capable of changing any environment, whether built areas, consolidated urban networks or even rural environments... or be regarded as a mere (important) concept or project strategy. All this was implicit in the proposal we made to the guests for this arqa issue.

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Set 2017

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