arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Editorial

por: Luís Manuel Pereira | luismanuelpereirarevarqa@gmail.com

INVADIR, ALASTRAR E DOMINAR: ULTRAPASSAR O LIMITE | INVADING, ALASTERING AND DOMINATING: TRANSCENDING THE LIMIT

Em termos objetivos, a arquitetura pertence, segundo os preceitos da teoria hegeliana, para quem o “Absoluto” é algo que se perfaz no processo histórico e não perfeição, situada para lá do mundo humano, visto ser uma manifestação auto referente. O que existe na arquitetura deve corresponder ao seu conceito. Nela, conceito ou pensamento, por um lado, e realidade, por outro, não se distinguem. Por esta razão, a arquitetura é também uma disciplina que mostra principalmente autonomia. Apresenta-se com as características, de ser pensamento e manifestação autónoma. Assim sendo podemos afirmar que experiência estética em arquitetura ultrapassa o livre jogo subjetivo. A arquitetura é, com certeza, manifestação e ato intelectual, suportado por um conteúdo ideológico, confrontado com aspetos centrais da filosofia que lhe é contemporânea, em que o logicismo está presente. O arquiteto tem a obrigação de observar o território, e que este é constituído por sinais, símbolos e limites obrigando-o a pensar que o objeto a criar é um somatório de causas, procurando uma recomposição e perseguir uma trama de nexos e de imagens. Esta atitude só se concretiza quando resulta numa sensação de identidade com o lugar. Neste contexto podemos afirmar que os projetos apresentados são gestos territoriais, utilizando os programas e a sua complexidade como solução para estabelecer a relação genérica de todos os elementos artificiais e naturais do sitio e a sua reorganização articulada. Neste ponto destaque para Veneza com o projeto de Cappai e Segantini o centro histórico de Leiria com o projeto de Gonçalo Byrne: o Bairro da Mouraria em Lisboa com a intervenção de João Paulo Reino; o Bairro de Siriusgatan, em Gotemburgo, com a intervenção do coletivo Warehouse e o Bairro da Campanhã no Porto, com o projeto de Nuno Brandão Costa. Apresentam-se como ato de coragem ao realizar a apropriação dos espaços intersticiais ou enormes vazios de uma malha urbana complexa e cheia de elementos referenciais. Organizam-se outras espacialidades contemporâneas e reforçando as preexistências agora redescobertas e ao mesmo tempo recriadas. Por dentro do tempo histórico das sucessivas contemporaneidades criam-se novos nexos e significados, definindo objetos apropriados a novos usos e outras vidas. Quanto aos projetos inseridos em edifícios construídos, com forte carga simbólica e temporal, a intervenção em um edifício no Centro de Leiria, de Rui Alves e Teresa Rodeia; o edifício da APL, do atelier RUA, e o Mercado de Xabregas, em Lisboa, de João Santa-Rita, apresentam uma necessária “invasão” dos espaços com novos programas, tem do como estratégia encontrar soluções aditivas, que permitem uma leitura clara das preexistências espaciais. Optaram para uma intervenção estratificada, introduzindo lógicas construtivas em que a materialidade não neguem as diferentes camadas do tempo. Como Vazios territoriais, e uma eficaz intervenção, temos o frontão de pelota basca, em Bilbao, de Marcelo Ruiz Pardo e Javier Gaston, e a moradia unifamiliar, em Benavente, de Maria Manuel Teixeira da Cruz. Os projetos enfrentam uma escala dupla: de um lado, enfrentam a escala territorial, do outro a paisagem. Esta situação é resolvida a partir do desenho de volumes que permitem articular relações e escala com as suas imediações, próximas e distantes. Através da materialidade também se responde às diferentes condições da envolvente. Tal como refere Nuno Brandão Costa, nos projetos apresentados, os programas constituem um argumento e uma oportunidade para num único momento urbanístico, paisagístico e arquitetónico devolver a sua humanidade e resolver a sua urbanidade. A contemporaneidade destes gestos poderão reatar o passado perdido e promover um significativo futuro.

 

In objective terms, architecture belongs, according to the precepts of the Hegelian theory, to which the “Absolute” is something that is made in the historical process and not perfection, situated beyond the human world, since it is a self-referential manifestation. What exists in architecture must match its concept. In it, concept or thought, on the one hand, and reality, on the other, are not distinguished. For this reason, architecture is also a discipline that shows mainly autonomy. It presents itself with the characteristics of being autonomous thought and manifestation. Thus, we can affirm that aesthetic experience in architecture surpasses subjective free play. Architecture is certainly a manifestation and an intellectual act, supported by an ideological content, confronted with central aspects of contemporary philosophy in which logicism is present. The architect has the obligation to observe the territory, and that this is constituted by signs, symbols and limits forcing him to think that the object to be created is a sum of causes, seeking a recomposition and pursuing a web of links and images. This attitude comes to fruition only when it results in a sense of identity with the place. In this context we can affirm that the projects presented are territorial gestures, using the programs and their complexity as a solution to establish the generic relation of all the artificial and natural elements of the site and its articulated reorganization. At this point, highlight to Venice with the project of Cappai and Segantini, the historic center of Leiria with the project of Gonçalo Byrne: the Bairro da Mouraria in Lisbon with the intervention of João Paulo Reino; The Siriusgatan neighborhood in Gothenburg with the intervention of the collective Warehouse and the Campanhã neighborhood in Oporto with the project of Nuno Brandão Costa. They are presented as an act of courage when realizing the appropriation of the interstitial spaces or enormous voids of a complex urban network full of referential elements. Other contemporary spatiality’s are being organized and the preexistences that are now rediscovered and recreated at the same time are being reinforced. Within the historical time of the successive contemporaries, new bonds and meanings are created, defining objects appropriate to new uses. As for the projects inserted in buildings constructed with a strong symbolic and temporal load, the intervention in a building in the Center of Leiria of Rui Alves and Teresa Rodeia; The APL building, the RUA atelier, the Xabregas Market in Lisbon, by João de Santa Rita, present a necessary “invasion” of spaces with new programs, has as a strategy to find additive solutions that allow a clear reading of the spatial preexistences. They opted for a stratified intervention, introducing constructive logics in which materiality does not negate the different layers of time. As territorial voids, and an effective intervention we have the Basque Pelota, in Bilbao, by Marcelo Ruiz Pardo and Javier Gaston, the single-family dwellings, in Benavente, by Maria Manuel Teixeira da Cruz. The projects face a double scale: on the one hand, they face the territorial scale, on the other the landscape. This situation is solved from the design of volumes that allow to articulate relations and scale with its near and distant surroundings. The materiality also responds to the different conditions of the surroundings. As stated by Nuno Brandão Costa, in the projects presented, the programs constitute an argument and an opportunity for a single urban, landscape and architectural moment to return its humanity and solve its urbanity. The contemporaneity of these gestures can restore the lost past and promote a significant future.

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Mai 2017

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