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Artes

por: Paulo Luís Almeida

A pintura que diz casa

Três teses sobre a pintura de Joana Rêgo

Um texto sobre pintura coloca sempre um problema para quem escreve e para quem lê: a sequência linear do gesto escrito impõe uma ordem ao pensamento que não é a ordem do gesto que pinta.
Um texto sobre uma pintura que também é um texto acrescenta uma segunda dimensão a este problema: a insuficiência do vocabulário para nomear as palavras quando aparecem na pintura. «Escrita» sugere uma fluidez que nem sempre as caracteriza; «tipografia» implica uma matriz que se repete, sem a singularidade com que cada pincelada constrói a letra; «texto» é um termo consensualmente vago; «inscrição» supõe um gesto em relevo que se impõe sobre a superfície, ou que a fere (em todo o caso, que a ultrapassa); «caligrafia» faz da palavra uma dependência do gesto autoral, criando o que Roland Barthes chamava de inter-texto: a pintora circularia entre dois textos - por um lado o seu, composto pelos seus gestos, pelas práticas e instrumentos da pintura; por outro lado, o jogo anónimo da linguagem - mas sem nunca sair dos limites do texto. Qualquer uma destas expressões, embora certas, retira à linguagem a sua materialidade e a gravidade que lhe dá o corpo com a pintura. No conforto das suas definições, estes nomes evitam a tensão com que a pintura investe sobre os códigos da linguagem e a força poética das imagens que resultam dessa tensão.
A obra de Joana Rêgo é um ensaio contínuo sobre os jogos da linguagem na pintura. Como uma terra de ninguém - esses territórios disputados entre duas partes que, por medo ou incerteza, não chegam a ser conquistados nem por uma, nem por outra - é uma zona liminar, feita de deslocamentos entre a imagem e a palavra, na qual os limites da pintura e da linguagem se suspendem, os seus códigos são postos à prova, manipulados e transformados. A sua eficácia reside na capacidade de transgredir categorias, de esquivar-se a definições. Creio que não há um termo exacto para designar esta terra de ninguém, que não é nem pintura nem escrita; que se esquiva à dimensão retórica da écfrase ou da ilustração. Na verdade, não precisamos de um termo exacto. São objectos a que chamamos pinturas, mas... ou a que não chamamos pinturas, mas... (...)  (…)

Mar 2017

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