arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Crítica

por: InÍs Moreira

Conetividade de um jovem corpo de arquitetos

Visitar os eventos dos primeiros cinco dias da Trienal de Arquitectura de Lisboa (11-15 de setembro), isto é, participar nos seus programas, discutir e partilhar ideias com os vários autores e convidados, foi uma montanha russa de experiências que levou semanas a digerir. 
Nos primeiros dias assistiu-se a um débito em direto de opiniões, de críticas e de algumas fúrias, por entre uma catadupa de textos e de imagens em blogs, revistas e de contatos em redes sociais, com uma velocidade de disseminação que espelha a escala verdadeiramente internacional do evento e que, também por isso, desperta uma voracidade de informação. Também nessa altura escrevi a minha primeira reflexão, publicada na novíssima revista inglesa Urbanista.org1, cobrindo o que me parecia de relevo para contextualizar a Trienal: a Arquitetura em Lisboa/Portugal perante a crise, a história da Trienal enquanto projeto, os temas gerais dos eventos, as propostas de Beatrice Galillee, Liam Young, José Esparza e Mariana Pestana, seus curadores, bem como a análise do conceito curatorial e suas propostas de ativação. 
Entusiasmada enquanto visitante com os eventos inaugurais (suas plataformas, conversas, visitas e refeições) e conduzida pela jovem dinâmica criada em Lisboa em torno da Trienal que foi verdadeiramente galvanizadora de uma "movida bienialista", ficam, contudo, algumas reservas quanto à profundidade (ou à explanação) do conceito curatorial de Beatrice Galillee no que se refere à noção de "participação" que é um conceito central a toda a programação. Intuíamos que os eventos (inaugurais) eram sobretudo entendidos como práticas participativas festivas, iminentemente interpoladoras dos visitantes em trânsito, descurando porém a continuidade do debate das questões levantadas e a análise/síntese dos inquéritos disponibilizados. Isto é, a reflexão sobre os conteúdos gerados nesta enorme plataforma de "participação" do público - da resposta a questões, ideias e conversas, e inquéritos vários - ficará em aberto e merecia ser registada e sedimentada, para, assim, poder ir além do seu natural desenvolvimento processual e efemeridade. Um trabalho de edição num volume registando as várias vozes seria fundamental como transmissão para o futuro e para aqueles que não participaram fisicamente. Poderá ainda vir a ocorrer?

Existem vários aspetos positivos que foram ativados pelas suas estratégicas de conexão. Ainda que se as estratégias mais "convencionais" de participação na discussão da cidade, e da arquitetura, através de projetos e planos mais oficiais, tenham sido substituídas por eventos relacionais, nos meses decorridos (setembro e outubro) verificamos que a extensa e contínua programação continua ativa e procurando interpolar públicos, agora mais especializados. Nomeadamente nas propostas de conexão no programa O Efeito Instituto, no MUDE, onde são desenvolvidos pequenos projetos entre arquitetos/agentes tanto nacionais como internacionais, como workshops, ateliers, edições coletivas, e outros. E por entre eventos formativo-criativos e estratégicas de networking, projetos como O Efeito Instituto, ou o Parlamento de Direitos Urbanos, a Sonda Espacial e a Embaixada de Terra Nenhuma, todos na exposição A Realidade e Outras Ficções/Palácio Marquês de Pombal, ou as Ground Sessions do programa Novos Públicos, têm potenciado o encontro de pessoas/coletivos/arquitetos com cruzamentos que usualmente não ocorreriam.
E é este efeito, entre as conexões planeadas e as conjunções autoconstituídas, que nos parece uma das maiores forças do programa: a Trienal catalisou o encontro de jovens agentes dispersos certamente contribuiu para dar corpo a interesses e preocupações de um vasto grupo que nela se revê.

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Dez 2013

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