arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Entrevista

por: Luís Santiago Baptista, Paula Melâneo

Jeremy Till

Novas Coletividades - Perspetivas Críticas

Arquiteto, Autor, Diretor Central Saint Martins College of Arts and Design, Curador Pavilhão Britânico Bienal Arquitetura Veneza 2006, Co-Autor "Spatial Agency"

arqa: Tendo em conta a sua investigação extensiva em torno da Spatial Agency, em que sentido lhe interessa especificamente o fenómeno das novas coletividades?

JT: O meu principal interesse reside no facto de que temos de encontrar alguma alternativa à ortodoxia neoliberal dominante. Trata-se, claramente, de uma posição política, mas, mais concretamente, trata-se de uma posição profundamente pragmática. O modelo de crescimento contínuo em que assenta o capitalismo global simplesmente não é sustentável no sentido da capacidade de sobrevivência do planeta. Também é claro que a extração de lucro e crescimento infinitos das economias atuais se está a tornar cada vez mais difícil, se não impossível: a crise financeira de 2008 aconteceu em alguma medida devido à invenção de novos instrumentos financeiros de grande risco, que incentivaram novas formas de mais-valias virtuais. E quando se percebeu que eram fictícios, todo o sistema entrou em colapso. Então, face à crise ecológica e à incapacidade do capitalismo encontrar outras formas de trabalhar, temos que procurar alternativas. A austeridade não é uma delas: trata-se, simplesmente, de uma imposição do estado económico - sempre legitimado com a fundamentação de que os cortes são necessários para restabelecer o equilíbrio económico, sempre baseados na promessa do futuro crescimento. A austeridade é apenas a perpetuação dos mesmos sistemas, mas ao contrário, e traz consigo uma distribuição altamente desigual de sofrimento. Um modelo alternativo é o do economista Tim Jackson, que defende a prosperidade sem crescimento, mas a sua definição de prosperidade excede o mero valor económico da riqueza. É uma redistribuição do que já temos atualmente - que, provavelmente, já é suficiente pelo menos para os que vivem no mundo "desenvolvido". Um tal modelo traz consigo novas formas de organização, às quais são centrais novos sistemas baseados em torno do coletivo. Está claro que a ordem económica existente e os seus agentes políticos dependem da hierarquia de privilégios (e, consequentemente, da desigualdade). isto precisa de ser contrariado pela ideia do coletivo - que nunca será totalmente igual ou consensual (porque não existe tal perfeição), mas que abandona noções de poder puro e controlo imposto. É interessante que um tal sentido do coletivo já começa a surgir nas zonas mais economicamente deprimidas na Europa - Espanha, Itália, Portugal - enquanto que no Reino Unido e na Alemanha se mantém a antiga ordem. O mais importante agora é abrir as brechas que emergem do sistema neoliberal e, dessa forma, ser capaz de propor alternativas profundamente pragmáticas e altamente visionárias. Cabe ao público fazê-lo, porque está claro que os neoliberais não têm imaginação nem vontade de sequer começar a considerar alternativas. A sua resposta sempre pronta, quando são desafiados, é dizer que não podemos seguir a via comunista - que só mostra a forma pateticamente limitada com que vêem o mundo.

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Mai 2013

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