arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Editorial

por: Luís Santiago Baptista

Portugal Cultural

A reorientação estratégica do arquiteto perante o conflito de culturas

1. A arquitetura é, por natureza, um dos campos privilegiados da cultura. Sempre o foi, embora habitando um campo ambíguo pela sua especificidade disciplinar e condição de existência. A arquitetura não é simplesmente um artefacto artístico, porque tem uma utilidade, nem um mero objeto técnico, porque tem qualidades estéticas. A singularidade cultural da arquitetura está, precisamente, nessa interceção de campos que minam, de ambos os lados, a sua autonomia. Não subentende a liberdade das artes, mas oferece-se esteticamente na experiência quotidiana. Não se circunscreve à técnica, mas amplia as suas possibilidades no próprio palco da vida. No entanto, ao contrário das outras práticas artísticas, literárias, performativas e visuais, a arquitetura requer fortes investimentos para se realizar. Investimentos esses, não simplesmente criativos e artísticos, nem meramente económicos e financeiros, mas igualmente investimentos humanos e coletivos. A sua realização não é apenas criativa e financeira mas igualmente participativa. A intervenção arquitetónica é um trabalho de equipa, avesso a empreitadas individuais. Para se concretizar envolve múltiplos agentes e intervenientes das mais diversas áreas disciplinares, seja para a pensar, seja para a projetar, seja para a construir, seja para a habitar. É neste sentido que a arquitetura é um trabalho eminentemente coletivo. Mas é também um trabalho de construção de comunidade, uma vez que organiza e distribui a nossa realidade vivencial. Espacializa-a sob a forma de ideias, narrativas, utopias, construções, materialidades, fluxos, etc. Perante este âmbito disciplinar abrangente, torna-se impossível negar a dimensão cultural da arquitetura. Em tempos de cultural studies, tendo em conta que no limite tudo pode ser manifestação cultural, a arquitetura não deixa de participar de alguma forma em todas essas práticas humanas e sociais. Dá-lhes espaço e configura-lhes a experiência e o uso. É pois esta conceção ampla do campo da arquitetura que hoje permite que se fale do arquiteto como alguém com instrumentos e capacidades para pensar espacialmente toda e qualquer atividade humana. Não apenas um arquiteto exclusivamente centrado no projeto, mas um "arquiteto expandido" com múltiplas valências para analisar, imaginar, debater, programar, projetar, construir e habitar espacialmente a complexa realidade vivencial e existencial. Como refere Mark Wigley: "O expanded architect retém e expande a capacidade nuclear do arquiteto que é pensar multidimensionalmente; de imaginar, quase ilegalmente, organizações que só são possíveis em espaços extraordinariamente multidimensionais, definidos pela colisão de forças incompatíveis. Somos terrivelmente corajosos ou ingénuos, não é claro, por conseguir ver a possibilidade da forma num caos de factores sobrepostos."1

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Fev 2013

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