arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Crítica

por: Gonšalo Furtado e Elza Lopes

Arquitetura e Cultura

Arquitetura Portuguesa face Ó Cultura Global

1. O início do século XX em Portugal trouxe mudanças e controvérsias na arquitetura, se alguns adotavam posturas nacionalistas/revivalistas, outros introduziam fortes inovações. Como nos recorda R. Henriques da Silva: "os valores artísticos tradicionais da arquitetura eram confrontados com os reptos da engenharia, dos novos materiais"1, tal como estaria a acontecer com o modernismo internacional. Nestas primeiras décadas a arquitetura foi-se desenvolvendo com liberdade e sem grande interferência do regime. Como referido por Teotónio Pereira, o Estado Novo, "nos anos iniciais, e ao contrário do que veio a acontecer mais tarde, manteve uma atitude de indiferença perante a criação arquitetónica".2 Contudo, nas palavras do mesmo, "perante o caráter francamente moderno e inovador que esses edifícios ostentavam, não tardaram as vozes de protesto, vindos do próprio interior do regime"3, contribuindo para que muitos dos projetos fossem reprovados ou adulterados de modo a satisfazerem o que o regime teria como representativo da cultura portuguesa. Deste modo, a maior parte dos arquitetos "aderiram aos ideais da arquitetura dita portuguesa, por um lado por serem dóceis apoiantes do regime, por outro pela superficialidade com que tinham abraçado os princípios do movimento moderno"4, formando-se o estilo Português Suave, uma arquitetura de propaganda que espelhava tanto os defeitos como as virtudes das políticas do momento.
Porém, e dado que esta arquitetura foi caindo num regionalismo decorativista fascizante, na década de 1940 surgiram protestos face às imposições conservadoras e historicistas. Salientam-se os manifestos de Keil do Amaral com "Uma Iniciativa Necessária" (1947), e Távora com "O Problema da Casa Portuguesa" (1948). Segundo Tostões, Keil do Amaral advertiu para "a ‘necessidade' da elaboração de um projeto sério sobre a arquitetura regional"5, sugerindo a elaboração de um Inquérito à Arquitetura Popular Portuguesa. Por outro lado, Távora no seu opúsculo defendeu a conciliação entre modernidade e tradição, "uma terceira via como destino cultural".6 Paralelamente a estes manifestos foram criados dois grupos que posteriormente, nas palavras de Teotónio Pereira, juntaram "esforços para dar cabo do chamado «português suave»".7 Em 1946 em Lisboa foi criado o ICAT, e no Porto no ano a seguir a ODAM. Ambos desempenharam um importante papel na organização do "1.º Congresso Nacional de Arquitetura" de 1948, que pretendeu tornar o papel do arquiteto mais ativo na sociedade, acabando por abalar o Português Suave. Este congresso permitiu o manifesto de uma nova geração acerca das suas convicções relativamente à cultura e política do país.
Como é sabido, foi também em 1948 que o Estado deu o seu aval para a execução do Inquérito à Arquitetura Popular Portuguesa. Este, que se executaria em 1955 e seria publicado em 1961,  expressou um paradoxo pois, apesar de ser promovido pelo Estado com vista a fortalecer a sua imagem, acabou por servir os interesses dos envolvidos na elaboração. Como recorda Teotónio Pereira, teriam dois objetivos distintos, "por um lado, fazer o levantamento da nossa arquitetura popular e, por outro, desmontar, através dele, a falsidade da pretensa arquitetura nacional".8 O Congresso e o Inquérito tiveram impacto na arquitetura posterior, tornando-a mais aberta para a sociedade e para o Mundo.
De facto, durante estes anos persistiram duas vertentes em paralelo, uma essencialmente tradicional, e de falsidade propagandista, e outra revelando uma grande consciencialização, atendendo às necessidades da sociedade. As décadas de 50 e 60 corresponderam ao verdadeiro arranque da Arquitetura Moderna, e afirma Tostões que se começou a pensar a arquitetura como "transformadora da vida da sociedade".9

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Fev 2013

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