

No atual contexto de crise do mercado da publicação impressa, saúda-se com entusiasmo o atual investimento criativo na área de edição de livros de arquitetura em Portugal. No momento em que se apresenta na Fundação Calouste Gulbenkian a magnífica exposição Tarefas Infinitas em volta da relação entre o livro e a arte, também no campo da arquitetura parecem surgir sinais animadores. No contexto de um tímido conjunto de edições recentes sobre a produção de arquitetos portugueses que têm procurado afastar-se da convencionalidade da ideia de monografia, dois livros destacam-se claramente pelo alcance dos seus programas e pelos consequentes riscos que assumem. De facto, Eduardo Souto de Moura: Atlas de Parede, Imagens de Método e ARX Portugal: Brick is Red não podem já ser definidos como monografias. Diríamos que são outra coisa. Talvez simplesmente livros de arquitetura. Na verdade, um dos editores do primeiro, Pedro Bandeira, refere explicitamente na sua introdução que "quando pela primeira vez abordámos Eduardo Souto de Moura, só tínhamos a certeza do que não queríamos fazer: uma monografia." Apesar de serem livros centrados na arquitetura de um determinado autor ou atelier, assumem uma abordagem excêntrica, mais focalizada no processo criativo do que no projeto finalizado. Mas analisemos então os dois casos referidos.
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Em segundo lugar, abordemos o caso singular do livro ARX Portugal: Brick is Red, uma edição de autor já de 2012 realizada pelos irmãos José e Nuno Mateus em parceria com o designer Pedro Falcão. Desde logo, destaca-se a ideia do livro de autor, frequente entre artistas mas não nos arquitetos, com a assunção do expor de uma perspetiva interior da sua própria prática arquitetónica. Esta publicação na primeira pessoa envolve desta forma a coragem de mostrar algo que os arquitetos têm dificuldade em expor, a saber, uma leitura autoral de um determinado percurso. Porém, ao afastar-se da convencionalidade no mostrar do trabalho do atelier, este livro habita um território mais precário e instável, expressando a opacidade inerente a uma tradução autoral subjetiva. Mas este não é propriamente um livro para ler, antes um livro para experimentar. Na verdade, um objeto enigmático que oferece uma experiência visual e táctil, por natureza aberta e não determinada. No entanto, ao nível da receção, esta é sempre uma publicação problemática, que sendo em si precisa e intencional nunca consegue ser de interpretação transparente e direta. Diríamos que o seu sucesso depende da abertura e disponibilidade do leitor. Daí a sua dimensão de risco e a adequação da opção editorial pelo livro de autor.
Out 2012

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