arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Itinerâncias

por: Nuno Viana

Uma conversa com Peter Eisenman

Palavras e Ideias de Arquitetura

Arquiteto, autor e professor, a importância da sua produção teórica e prática é internacionalmente reconhecida. Licenciado pela Universidade de Cornell, mestre em Arquitetura pela Universidade de Columbia, doutorado em Filosofia pela Universidade de Cambridge, foram-lhe atribuídos várias graduações honorárias. Lecionou em algumas das mais prestigiadas universidades do mundo, incluindo: Cambridge, Yale, Princeton, Harvard, Ohio State e The Cooper Union. Atualmente ocupa a posição de professor de Arquitetura Charles Gwathmey, em Yale. Fundador e Diretor do Instituto de Arquitetura e Estudos Urbanos (1967-1980), escreveu alguns dos mais importantes textos e ensaios críticos da teoria da arquitetura, incluindo "House X", "Moving Arrows, Eros and Other Errors", "Giuseppe Terragni", "Ten Canonical Buildings", entre muitos outros. Para além da contribuição teórica, Eisenman também deixou uma marca indelével na prática da disciplina com projetos icónicos nas últimas décadas, abraçando sempre uma postulação de dúvida e constante questionamento como horizonte para e no projeto. Entre eles encontram-se: o Centro de Artes Wexner, o Memorial para os Judeus Assassinados na Europa e a Cidade da Cultura na Galiza. Aclamado e premiado por todo o mundo, foi-lhe atribuído em Israel o Prémio Internacional Wolf Prize em Arquitetura, o Leão de Ouro em consagração de carreira artística pela Bienal de arquitetura Internacional de Veneza em 2004 e o Prémio Nacional de Design Smithsonian Institution's 2001 Cooper-Hewitt em Arquitetura. Um dos expoentes máximos da era pós-moderna, particularmente através do desconstrutivismo, os seus encontros passados com Jacques Derrida envolvem-se de uma aura quase mística, um filósofo com quem estabeleceu uma ligação próxima relativamente ao questionamento da realidade e da arquitetura.

Nuno Viana: Palavras. Sentidos. Vontade. Pensamento. Intuição. Afirmou que as palavras são mais importantes que edifícios. Que tipo de importância implica esta consideração? Formação do olhar, direções de criação, questionamento de realidade? Podemos exercer algum grau comparativo entre, por exemplo, a relevância de uma obra literária como a de James Joyce ou Marcel Proust e as Pirâmides de Gizé nessa assunção? 
Peter Eisenman: Primeiro que tudo, quando digo que as palavras são mais importantes que edifícios, estou realmente a pensar em palavras em termos de arquitetura e não em termos de literatura, porque claramente literatura e arquitetura, tal como escultura e literatura, ocupam dimensões diferentes. Pode-se expressar o tempo em literatura, mas é difícil fazê-lo em meios mais estáticos como na escultura e na arquitetura. Noutras palavras, a narrativa em literatura pode expressar um contínuo fluxo temporal, de ideias, e consequentemente ser muito mais subtil e aberto à imaginação e interpretação. A arquitetura está, é uma atitude de ação única, e por isso a arquitetura, ao contrário da literatura, lida com o espaço enquanto que a literatura lida com o tempo. Logo, a mim interessa-me essa relação de ideias e conceções de tempo com o espaço, algo que considero muito importante e que nem sempre tem sido totalmente compreendido na arquitetura. No fundo, palavras são uma metáfora para o tempo em arquitetura. Frequentemente costumo dizer que nós não teríamos a possibilidade de olhar para as villas de Palladio se ele não tivesse escrito o "Quattro Libri". O "Quatro Libri" expressa ideias no tempo, e consequentemente mais subtilmente que no espaço. O facto de Palladio ter redesenhado todos os seus edifícios no "Quattro Libri" depois de os construir demonstra que para ele esse livro foi provavelmente mais importante que os edifícios. De um ponto de vista histórico e teórico o livro sobreviveu melhor que qualquer das suas obras construídas. E digo o mesmo em relação a Le Corbusier. Muitos arquitetos franceses entre outros, estavam a projetar pequenas casas brancas nos anos 20, em França, que eram tão boas como as casas de Le Corbusier. Le Corbusier escreveu "Vers une Architecture", publicou "Cinq points d´une Architecture Nouvelle" e "Les Quatre Compositions", todos eles mais articulados e importantes na história da arquitetura que qualquer das suas casas. O "Dom-ino Diagram" é uma escrita verdadeira para mim, e provavelmente a coisa mais importante que Le Corbusier fez. "Complexity and Contradiction" de Robert Venturi é mais importante que qualquer edifício projetado por ele, "L´Architettura della Città" de Aldo Rossi é mais importante que qualquer edifício projetado por ele, "Delirious New York" é mais importante que qualquer edifício que ele alguma vez irá projetar. Estes são exemplos fortes, em que a produção escrita e os desenhos, e eu incluo os desenhos como parte da produção escrita, são mais importantes que qualquer obra física. Aquelas pessoas estavam preocupadas com a evolução da arquitetura.

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Mai 2012

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