arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Entrevista

por: Luís Santiago Baptista e Paula Melâneo

Madalena Cunha Matos

Portugal Turístico | Perspetivas Críticas

Arquiteta LCM arquitectos, Professora FA-UTL, Investigadora CIAUD

arqa: Tendo em conta a sua investigação, de que forma lhe interessa a temática do turismo?
MCM: Apercebi-me por patamares da natureza heterogénea, híbrida, heterotópica do turismo. Não é uma temática fácil porque é contaminada e contamina muito do quotidiano do planeta. O turismo parece ter adquirido o estatuto de alfa e omega na vitalidade de monumentos, cidades, territórios... Nada pode prosperar sem a bênção desse novo deus do olimpo pós-moderno. Em Portugal e em muitos países sem matérias-primas valiosas e sem as poderosas indústrias que alavancaram os países do Norte desde o século XIX, o turismo surge como a indústria acessível, a que já nos sustenta o presente e na qual o futuro se fixa. Se há razões para tal confiança, dúvidas não faltam; mas a irresistível sedução do que já está presente, do que é possível, do que nos liga tão poderosamente a quem aqui chega como turista - as bênçãos da natureza e as sucessivas camadas do artifício produzido pelo homem, percecionadas como património - a irresistível sedução enleva-nos e impele-nos à ação. As profissões minimamente relacionadas com o espaço - a arquitetura, o urbanismo, as engenharias, o design, o paisagismo, a geografia, a sociologia, a antropologia, a economia, a política; as atividades produtivas relacionadas com a captação e estadia de pessoas - a restauração e hotelaria, a gestão, o marketing, os transportes; e as atividades de produção artística e cultural - os museus, a animação cultural, as artes plásticas, os media, a literatura e o cinema - todas são acionadas por esse maelstrom. Desde 1936, data da instituição das férias pagas decididas pelo Front Populaire em França, cresceu exponencialmente. Absorve e intersecta mais e mais atividades. Comecei a interessar-me pelo fenómeno do turismo por um repto que me foi lançado, pouco tempo após ter terminado o doutoramento, pelo Manuel Graça Dias: refletir sobre a relação entre turismo e território, para o segundo número do JA - Jornal Arquitetos que estava organizando com o tema da obra do Ramalho Ortigão As Praias de Portugal. Daí saiu um primeiro texto, ‘Turismo e Território: Notas sobre uma relação', em 2000. O desafio seguinte foi a leitura de um livro, Building the Cold War: Hilton International hotels and modern architecture, de Annabel Jane Wharton, que traça a interessantíssima relação entre a política americana e a produção de uma cadeia de hotéis - os Hilton - que constituíram o protótipo do hotel moderno, paralelepipédico, sobre um embasamento, com cerca de 300 quartos, afinado no modelo produzido em Istambul; o mesmo modelo que o Ritz incorpora em Lisboa. Esse enfoque trouxe-me à questão da tipologia e implantação dos hotéis, de que apresentei em 2004 dois trabalhos, numa conferência em Nova Iorque e numas Atas de conferência havida em Valência; nesse ano apresentei à Fundação para a Ciência e a Tecnologia uma candidatura de trabalho sobre a arquitetura hoteleira em Portugal que foi aprovada. Dessa proposta, cujo tempo decorreu um pouco desassossegadamente por coincidir com grandes responsabilidades de gestão universitária, desenvolvi, com a preciosa ajuda das então Mestres Marta Sequeira e Patrícia Pedrosa e da Doutora Tânia Beisl Ramos, uma base de dados com grande parte dos hotéis portugueses do século XX e apresentámos artigos em conferências nacionais e internacionais. O interesse foi ainda alimentado pelo trabalho de análise da obra do Arquiteto Jorge Ferreira Chaves, que, além de ter sido um colaborador-autor essencial do hotel Ritz no âmbito do atelier Porfírio Pardal Monteiro e na SODIM, foi um dos iniciadores da tipologia do hotel moderno e orgânico em Portugal, com projetos para o Algarve e as Ilhas Atlânticas. O tema persiste e está presente na pesquisa sobre a imagem projetada e a autoimagem do país: a procura da identidade de um país por meio da arquitetura. Considero este um tema em aberto, com forte necessidade de análise, reflexão, envolvimento da comunidade académica e de crítica e posicionamento de toda a sociedade. Não pode estar a determinar a nossa economia e em simultâneo alhearmo-nos da sua infraestrutura territorial, do seu urbanismo e da sua arquitetura.

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Mai 2012

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