
Arquiteto, Crítico, Professor Católica Viseu
arqa: Tendo em conta a sua investigação, de que forma lhe interessa a temática do turismo?
PB: O turismo é uma actividade que suscita questões fascinantes, quase filosóficas, ao convocar diferentes tempos, espaços, identidades, referentes... Fascina-me o modo como no mundo actual, globalizado e instantâneo, o turista, ao chegar ao seu destino, se tornou já no efémero proprietário de uma realidade que o passar do tempo e as layers do turismo de anos anteriores amputaram já de si mesma mas que ele vive como se fosse, e acredita ser, fidedigna ao que em tempos, (um tempo anterior ao do turismo) foi. Mas efectivamente esta "realidade" é já só um reflexo, fosco e deformado do desejo que ardentemente desejou. O turismo opera assim em torno de alguns paradoxos. O primeiro é que os turistas são observadores-participantes que pelo simples facto de participarem alteram para sempre a realidade observada e participada. Observadores-participantes, diga-se, que ao desejar entrar num tempo, modo e espaço diferentes do seu, se vêem no entanto, imersos num meio-termo morno, de estudado compromisso entre o aqui-e-agora e um "ali" de nenhum tempo e de todos os lugares que os leva a aceitar, entre resignados e aliviados, que o que desejavam que fosse diferente, até estranho, se tenha entretanto, por obra e graça da estandardização do gosto e das convenções internacionais da hotelaria, convertido em clone do que já lhes era familiar. E observador-participante, o turista, acrescente-se, que ao desejar arrendar temporariamente uma forte experiência de desenraízamento, até de ruptura com o seu quotidiano, se vê subitamente catapultado, a cada nova saison e em cada vez mais distantes latitudes e longitudes, para mais próximo dos modos e valores que deixou em casa e assim cada vez mais longe do estranhamento (até mesmo do exotismo) que, em vão, afinal desejava. Mas o paradoxo do turismo actual não deriva só da necessidade que a oferta tem de constantemente e de forma crescente e imparável se aproximar do que (imagina serem) os universos de referência da procura. Ele é mais profundo do que isso: a oferta tem de se aproximar da procura por causa da natureza ambígua e até dual da própria procura. A máquina-desejante do turista, ao mesmo tempo que, com toda a sua força deseja, também, com igual ou maior intensidade resiste ao cumprimento radical desse desejo: à medida que almeja viver uma realidade outra, que lhe seja estranha e exterior, ele anseia pelas coisas, os hábitos, os processos que lhe são familiares. Aqui radica a natureza ficcional do turismo: não podendo oferecer plena e radicalmente o "outro" do turista, sob pena de o tornar assim indesejado e inóspito ao turista, o turismo, para não ser inconsequente com os seus propósitos económicos, opera construíndo ficções (e fricções) que se interpõem entre o real e o desejado. O turismo opera por procuração, proporcionando ao turista um casamento sempre frágil entre si e uma representação imaginada (por si, por terceiros, pelos média) dos seus desejos. O turismo é por definição uma realidade delirante, cuja matéria-prima é a irrealidade, até por vezes a surrealidade, do possível. Mas ao nunca proporcionar a coisa-em-si desejada, mas tão somente o efémero disfrute do simulacro da possibilidade desejada, o turismo converte-se também numa actividade castradora, pois o desejo não encontra nunca forma plena de se efectivar. Assim outro paradoxo está em que mesmo sendo "simulante" e castrador o turismo suplanta ainda assim a imobilidade e impassibilidade do não-turismo, pesadamente imerso nas cadeias do real quotidiano, pois estas, ao manterem-se, imutáveis, permanentes, transformam uma máquina desejante num autómato indiferente, estéril e frígido. Porque o que no turismo nos alimenta e altera não é a ruptura que assim estabelecemos com o quotidiano, ou até a intensidade que damos a essa ruptura, mas o facto de que podermos fazer turismo constitui em si mesmo uma renovação e reafirmação da nossa capacidade desejante. Um último paradoxo do turismo é que, no cíclico regresso ao espaço interior, aconchegante e familiar das nossas vidas quotidianas, a consciência trazida da ruptura transitória em que acabámos de viver, a noção plena do seu poder catárquico, a renovada fé na possibilidade de exorcizar sazonalmente o ensimesmamento e modorra dos dias iguais, torna o "ir para fora" essencial à renovação cíclica, se possível revigorada, do viver "cá dentro". É um tema riquíssimo...
Mai 2012

Arquiteta AUMstudio, Umasideia e Speculatis Aeterna, Professora Pratt Institute Graduate School of Architecture e Rensseler Polytechnic Institute School of Architecture arqa: Tendo em conta a sua investigação na área…
Abr 2013

Arquiteto, Mestre Advanced Architectural Design Columbia University (EUA); Doutor MIT (EUA), Professor DARQ Universidade de Évora arqa: Tendo em conta a sua investigação na área da teoria da arquitetura…
Abr 2013