arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Entrevista

por: Luís Santiago Baptista e Paula Melâneo

Fernando S. Salvador + Margarida G. Nunes

Portugal Turístico | Perspetivas Críticas

Arquitetos FSSMGN, Professores FA-UTL, (M. G. Nunes) UAL-DA, ESAD-FRSESS

arqa: Tendo em conta a vossa prática em tipologias históricas e turísticas, de que forma lhes interessa a temática do turismo?
FSS+MGN: As cidades são desde sempre um dos destinos do viajante, e a sua fruição confunde-se, num tempo em que o tempo era mais distendido, com a vivência da cultura local, o entendimento de outros modos de vida e o reconhecimento de outros cenários para o dia a dia. Os destinos turísticos são um conceito recente na história da humanidade, plenamente desenvolvido na segunda metade do século XX, e que cresce, como fenómeno massificado, com a sociedade da informação e com a globalização. Mas alguns destes locais, inicialmente cidades plenamente habitadas, desprovidos das suas vivências específicas, não são mais do que contentores vazios, por vezes belíssimos, onde dificilmente poderá o viajante reconhecer-se. Assim, entendemos a temática do turismo como um motor fortíssimo para a preservação, a requalificação e a transformação de lugares habitados, desejavelmente habitáveis, com uma intensidade de vida urbana própria,  que convoque o interesse de toda uma comunidade de viajantes/turistas em movimento permanente, e que lhes suscite o desejo de permanecer.
O turismo de qualidade como temática é relevante e substitui-se, de um ponto de vista mais restrito, à discussão do turismo de massas, configurando um campo de atuação sobre a realidade a que a arquitetura e o seu projeto não se podem alhear nem ignorar. A ideia de turismo interliga-se na história com a ideia de viagem. A viagem como errância. "O que importa não é chegar mas viajar" afirma Goethe na sua Viagem a Itália, escrito nos finais do século XVIII. Nessa obra a viagem é vista como metáfora da vida, do próprio Goethe, convertendo-se em objeto conhecimento de si próprio. Uma vasta literatura de viagens, sob a forma de cartas e diários, desponta com o início do século XVIII, em Inglaterra, a partir do "Grand-Tour", sendo que este se converte num suplemento de formação e depois num método de educação e conhecimento privilegiado da realidade cultural. Consolida-se a consciência do conhecimento articulado com o contacto com outros territórios para lá da Canal da Mancha. Em épocas anteriores, eram dominantes as viagens como peregrinações religiosas, dando origem ao estabelecimento de locais próprios para paragem e restauro gastronómico dos viajantes - estalagens ou mesmo Estaus, como os trechos que restam em Tomar, construídos a partir dos inícios do século XV, de apoio aos peregrinos que se dirigiam ao Convento de Cristo. Os itinerários e passeios da nobreza ou de uma burguesia ascendente socialmente, davam lugar a registos em álbuns de desenhos e de descrição dos locais visitados, sobretudo cidades e vilas, como foi a viagem de Cosme de Médicis, de Florença até ao norte de Portugal, minuciosamente apontada por Pier M.Baldi, no século.XVII.
Há também uma renovado interesse, no nosso país, pelas terras, cidades e aldeias, de que nos dá conta Almeida Garrett na sua "Viagens na Minha Terra", e muitos outros escritos da mesma natureza que emergem no final do século XIX. É com o pós-guerra e com os anos 60 do século XX que eclode um turismo alargado e crescentemente massificado, nos seus destinos de visita e na construção de imagens sedutoras. Hoje uma parte expressiva de todas as camadas populacionais deslocam-se permanentemente em caudais avassaladores de massas humanas, fazendo emergir uma condição de crescente nomadismo e errância, cada vez mais low-cost. É nesta crescente constatação e consciência que a temática do turismo, o minoritário, singular e de qualidade, pode afetar os programas de arquitetura e do projeto. Os locais de permanência, de estar e ficar, como são os casos tipificados dos hotéis, estalagens, estâncias ou outros e diversificados locais de abrigo e restauração, emergem como cenários de vida atuais e de experimentação de uma realidade que se deseja diferente da que é vivida no quotidiano.

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Mai 2012

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