#58

DAVID SANTOS,
MARCEL DUCHAMP E O READYMADE,
ASSÍRIO E ALVIM, 2007

por Mário Chaves | mario.chaves@qualitas.pt

Foi uma Europa diferente, aquela que permitiu que no século XX Marcel Duchamp fosse o fazedor por excelência do readymade. Num século da descoberta da mecânica quântica e do fim da exigência do academismo, pode-se arguir que Duchamp fosse um dos maiores oportunistas desse mundo convulso e receptivo e, sobretudo, crente na novidade. Era um mundo rico que se aniquilava, na 1ª guerra que grassava na Europa opulenta, industrial por vontade e sistematicamente bélica, como teste de todo um sistema de transformação por energia e matérias-primas que a natureza generosa e inocentemente fornecia. Por tal foi evidente que a afirmação de Duchamp fosse através de objectos industriais; na desconstrução e reconstrução do sentido: a ironia da significação na prática de readymade. Tem toda a evidência que este sentido de oportunidade na afirmação do imaginário de liberdade criativa se explanasse nessas máquinas de transmissão, já feitos, imbuindo-os da sacralização que a arte opera. Mas são um engodo, legítimo e eficaz à data, legitimando o poder da novidade sobre uma cultura gorda de excessos. Culturalmente todas as vertentes têm sentido e oportunidade, mas se todas as acções têm uma consequência, foi necessário que esta elementaridade fosse basilar a uma arte despojada e ligada aos elementos feéricos da indústria pujante, que não tinha tido ainda uma expressão directa e consequente. É com ironia que o objecto eleito é um mictório, imaculado e virgem, polido e macio, que vem corresponder à ideia de despersonalização que o objecto industrial potencia. Na origem do design, a mácula da assinatura personaliza-o de novo, qual Madonna, sacralizada e única.
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Junho 2008