DAVID
SANTOS,
MARCEL DUCHAMP E O READYMADE,
ASSÍRIO E ALVIM, 2007 |
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por
Mário Chaves | mario.chaves@qualitas.pt
Foi uma Europa diferente, aquela que permitiu que
no século XX Marcel Duchamp fosse o fazedor
por excelência do readymade. Num século
da descoberta da mecânica quântica e do
fim da exigência do academismo, pode-se arguir
que Duchamp fosse um dos maiores oportunistas desse
mundo convulso e receptivo e, sobretudo, crente na
novidade. Era um mundo rico que se aniquilava, na
1ª guerra que grassava na Europa opulenta, industrial
por vontade e sistematicamente bélica, como
teste de todo um sistema de transformação
por energia e matérias-primas que a natureza
generosa e inocentemente fornecia. Por tal foi evidente
que a afirmação de Duchamp fosse através
de objectos industriais; na desconstrução
e reconstrução do sentido: a ironia
da significação na prática de
readymade. Tem toda a evidência que este sentido
de oportunidade na afirmação do imaginário
de liberdade criativa se explanasse nessas máquinas
de transmissão, já feitos, imbuindo-os
da sacralização que a arte opera. Mas
são um engodo, legítimo e eficaz à
data, legitimando o poder da novidade sobre uma cultura
gorda de excessos. Culturalmente todas as vertentes
têm sentido e oportunidade, mas se todas as
acções têm uma consequência,
foi necessário que esta elementaridade fosse
basilar a uma arte despojada e ligada aos elementos
feéricos da indústria pujante, que não
tinha tido ainda uma expressão directa e consequente.
É com ironia que o objecto eleito é
um mictório, imaculado e virgem, polido e macio,
que vem corresponder à ideia de despersonalização
que o objecto industrial potencia. Na origem do design,
a mácula da assinatura personaliza-o de novo,
qual Madonna, sacralizada e única.
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