#58
Uma reflexão
Habitar a Frente Ribeirinha

por Pedro Ressano Garcia

A regeneração da frente ribeirinha subentende uma teoria de necessidades, o proporcionar novos espaços públicos a esta fracção de cidade transpondo barreiras de circulação existentes entre cidade e porto, como uma continuação organizada da cidade ao encontro do rio. O habitar manifesta-se nas muitas escalas do objecto construído, da abordagem a uma casa, aos mais complexos, como a cidade, o espaço colectivo em que partilhamos hábitos e coabitamos com a diferença, na medida em que o espaço público é, por natureza, o espaço do outro. A resposta não está no criar acrescentos ribeirinhos, mas na continuação e integração das soluções na cidade existente, criando diferentes ambientes que, a diferentes níveis, sugiram o encontro humano e diluam o impacto que as vias de circulação têm nesta frente da cidade. Os conceitos apresentados reconfiguram o território e idealizam um crescimento integrado, não independente, até ao rio, por via
da extensão do jardim 9 de Abril à Doca de Alcântara e de Santos ao Tejo. Plataforma Tejo é uma nova morfologia urbana que visiona uma cobertura ajardinada a ligar a parte alta da cidade, jardim 9 de Abril, e a zona portuária. Garante à cidade espaço público contemporâneo de frente para o rio, com possibilidade de diferentes apropriações. Uma reconfiguração sustentada do território, que contraria a urbanização dos terrenos portuários, potencia as oportunidades do lugar e se constrói sobre os dois obstáculos ao Tejo: o caminho-de-ferro e a Avenida 24 de Julho. Esta proposta de edifício passagem propiciaria uma nova centralidade em Lisboa, funcionando como porta da cidade histórica, um espaço nobre de recepção ao terminal de Cruzeiros de Turismo da Rocha de Conde de Óbidos e, como uma espécie de pólo museológico, conciliando as várias instituições e equipamentos locais: o Museu Nacional de Arte Antiga (solucionando os problemas de acessibilidades), a sede da Cruz Vermelha, a Gare Marítima da Rocha de Conde de Óbidos e o futuro Museu do Oriente , permitindo, desta forma, uma revitalização coerente do lugar.
(...)

Pedro Ressano Garcia é arquitecto e, há dez anos, dedica-se a estudar a reconfiguração das cidades portuárias, tema da sua tese de mestrado e de doutoramento. No seu atelier, em Lisboa, procura combinar teoria e prática em projectos de arquitectura e desenho urbano, participando também em concursos nacionais e internacionais. Iniciou-se como docente na Universidade de Berkeley, na Califórnia, e, actualmente, na Universidade Lusófona. Foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian e da Fundação para a Ciência e Tecnologia. Publica regularmente em livros, revistas e seminários; é professor convidado e conferencista em universidades portuguesas e em workshops internacionais.

Junho 2008