Habitar
Colectivo
Álvaro Siza Vieira e BIG |
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por
Luís Santiago Baptista | lsbaptista@revarqa.com
1 A ideia de habitar
colectivo não se opõe à habitação
privada nem se resume a habitação
colectiva. Habitamos não só uma casa,
mas também um bairro, uma cidade, um território
e, porque não, o espaço virtual da
comunicação generalizada. Desde logo,
o que caracteriza a ideia de habitar colectivo é
esse investimento num horizonte de partilha que,
por um lado, extravasa a dimensão privada
tradicional da habitação, por outro,
não se limita às formas de organização
das células habitacionais. De facto, o habitar
colectivo pressupõe necessariamente a estruturação
social e material de uma comunidade, exigindo a
consideração de uma relação
com o espaço público. Por outro lado,
disciplinarmente, torna-se fundamental perceber
as mudanças introduzidas com a modernidade
arquitectónica, na qual o arquitecto deixava
de reproduzir simplesmente os modos vivenciais tradicionais,
com as suas formas sedimentadas pela história
e memória, passando a propor racionalmente
a sua radical reestruturação. Essa
redefinição moderna do habitar colectivo
assentava na promoção e intensificação
da vida comunitária, através de uma
maior interligação e interacção
entre os espaços privado e público.
Mas hoje, inversamente, perante o fenómeno
generalizado de privatização das sociedades,
a produção arquitectónica contemporânea
vai cada vez mais revelando um desinvestimento nesse
espaço mediador entre a vertente privada
e pública da vida. A proliferação
da vivenda unifamiliar segregada e do condomínio
privado fechado são disso provas inequívocas.
Neste âmbito, como pode o trabalho do arquitecto
assumir hoje uma intervenção positiva
na resposta a esta nova condição existencial,
sem cair no autismo ou demissão disciplinares?
Álvaro Siza Vieira e o atelier BIG de Bjarke
Ingels apresentam-nos dois caminhos consistentes
de abordagem ao habitar colectivo na contemporaneidade.
Por um lado, ao longo de meio século, Siza
tem vindo a responder aos desafios particulares
de campos diferenciados do habitar, desde a habitação
individual burguesa até à habitação
colectiva urbana, passando pela habitação
social popular. Apesar da diversidade da encomenda,
vislumbra-se na obra do arquitecto português
a presença de uma concepção
universal do habitar, revelada através de
um processo de activação projectual
da memória histórica e disciplinar
perante uma situação física
e social específica. Por outro lado, Bjarke
Ingels desenvolve intencionalmente uma ideia metropolitana
de habitar colectivo, assente quer na densificação
e artificialização do meio urbano
quer na activação e exponenciação
da dimensão colectiva das propostas. Neste
sentido, o arquitecto dinamarquês convoca
a herança disciplinar moderna, assumindo
a ruptura introduzida com a modernidade e consequentemente
manifestando a abertura ao inesperado pressentido
na atmosfera dos novos tempos. No entanto, apesar
da acentuada diferença geracional, as respostas
arquitectónicas, quase antagónicas,
destes arquitectos aproximam-se na atenção
determinante que prestam às condições
produtivas contemporâneas. Na verdade, ambos
se interessam não apenas pelos projectos
arquitectónicos mas pelos processos que os
possibilitam. Talvez por isso, curiosamente, tanto
Siza como Ingels tenham desenvolvido, embora em
moldes diferentes, um interesse pela temática
da participação.
(...)
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