#58
Habitar Colectivo

Álvaro Siza Vieira e BIG

por Luís Santiago Baptista | lsbaptista@revarqa.com

A ideia de habitar colectivo não se opõe à habitação privada nem se resume a habitação colectiva. Habitamos não só uma casa, mas também um bairro, uma cidade, um território e, porque não, o espaço virtual da comunicação generalizada. Desde logo, o que caracteriza a ideia de habitar colectivo é esse investimento num horizonte de partilha que, por um lado, extravasa a dimensão privada tradicional da habitação, por outro, não se limita às formas de organização das células habitacionais. De facto, o habitar colectivo pressupõe necessariamente a estruturação social e material de uma comunidade, exigindo a consideração de uma relação com o espaço público. Por outro lado, disciplinarmente, torna-se fundamental perceber as mudanças introduzidas com a modernidade arquitectónica, na qual o arquitecto deixava de reproduzir simplesmente os modos vivenciais tradicionais, com as suas formas sedimentadas pela história e memória, passando a propor racionalmente a sua radical reestruturação. Essa redefinição moderna do habitar colectivo assentava na promoção e intensificação da vida comunitária, através de uma maior interligação e interacção entre os espaços privado e público. Mas hoje, inversamente, perante o fenómeno generalizado de privatização das sociedades, a produção arquitectónica contemporânea vai cada vez mais revelando um desinvestimento nesse espaço mediador entre a vertente privada e pública da vida. A proliferação da vivenda unifamiliar segregada e do condomínio privado fechado são disso provas inequívocas. Neste âmbito, como pode o trabalho do arquitecto assumir hoje uma intervenção positiva na resposta a esta nova condição existencial, sem cair no autismo ou demissão disciplinares? Álvaro Siza Vieira e o atelier BIG de Bjarke Ingels apresentam-nos dois caminhos consistentes de abordagem ao habitar colectivo na contemporaneidade. Por um lado, ao longo de meio século, Siza tem vindo a responder aos desafios particulares de campos diferenciados do habitar, desde a habitação individual burguesa até à habitação colectiva urbana, passando pela habitação social popular. Apesar da diversidade da encomenda, vislumbra-se na obra do arquitecto português a presença de uma concepção universal do habitar, revelada através de um processo de activação projectual da memória histórica e disciplinar perante uma situação física e social específica. Por outro lado, Bjarke Ingels desenvolve intencionalmente uma ideia metropolitana de habitar colectivo, assente quer na densificação e artificialização do meio urbano quer na activação e exponenciação da dimensão colectiva das propostas. Neste sentido, o arquitecto dinamarquês convoca a herança disciplinar moderna, assumindo a ruptura introduzida com a modernidade e consequentemente manifestando a abertura ao inesperado pressentido na atmosfera dos novos tempos. No entanto, apesar da acentuada diferença geracional, as respostas arquitectónicas, quase antagónicas, destes arquitectos aproximam-se na atenção determinante que prestam às condições produtivas contemporâneas. Na verdade, ambos se interessam não apenas pelos projectos arquitectónicos mas pelos processos que os possibilitam. Talvez por isso, curiosamente, tanto Siza como Ingels tenham desenvolvido, embora em moldes diferentes, um interesse pela temática da participação.
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Junho 2008