#58
Para uma nova relação entre as coisas e as pessoas
Daniela Pais
por Bárbara Coutinho | barbaracoutinho@netcabo.pt

Perante as sucessivas catástrofes humanitárias, o aquecimento global ou a poluição atmosférica, a explosão demográfica e o aumento da população no limiar da sobrevivência, é urgente redesenhar o modo como habitamos o planeta. Durante os últimos anos, temos vindo a assistir a inúmeros projectos que actuam em nome do colectivo e à escala global, demonstrando a capacidade do design ser um agente transformador do mundo e de contribuir para um futuro mais sustentável, igualitário e justo. Em lugar de continuar a projectar e produzir um sem número de objectos que apelam ao consumo imediato pela sua singularidade, inovação, qualidade formal ou tecnológica, mas que acabam por ficar rapidamente ultrapassados, tornando-se descartáveis, implementa-se um design humanitário. Um design que anuncia uma nova perspectiva sobre a cultura material, que contribui para a resolução das necessidades essências do ser humano e que parte das ideias de simplicidade, eficiência, necessidade, funcionalidade e respeito ambiental. Um design que apela a uma alteração das mentalidades e a uma intervenção cívica mais activa que passa pela adopção de pequenos gestos que podem diminuir as disparidades sociais existentes. Estamos perante uma acção ética e socialmente responsável que traduz uma preocupação com a sustentabilidade económica/ambiental e uma atenção particular com a grande maioria da população que não tem acesso aos produtos e serviços básicos, que é excluída do sistema produtivo1. Dai falar-se de um design para a maioria, de um design comprometido socialmente, que não procura criar mais consumidores, antes pretende contribuir para utilizadores mais críticos e conscientes do planeta como um todo, como uma morada comum. Recordemos que, já em 1971, Victor Papanek havia publicado Design for the Real World. Human ecology and social change e defendido que o «design doit devenir un outil novateur, hautement créateur et pluri-disciplinaire, adapté aux vrais besoins des hommes. Il doit s’orienter devantage vers la recherche, et nous devons cesser de profaner la Terra avec des objets et des structures mal conçues»2. Esta atitude leva o design a procurar soluções integradas para um habitat mais sustentável, gerando um impacto ambiental e social positivo. São ideias e projectos que têm os olhos postos no futuro.
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Junho 2008