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O “artista como etnógrafo”
ou a demanda de um último “outro”1 |
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por
David Santos | davidsantos@gmail.com
Nos anos 80 do século passado, Gilles Lipovetsky
falava já de uma nova “era do vazio”,
de uma “sociedade hedonista” marcada
por um lento “crepúsculo do dever”2
que progressivamente silenciara os valores humanistas,
e contra os quais uma inevitável invasão
se desenhava, apontando para um domínio cada
vez mais heteróclito de paroxismo individualista,
consumista e alienante. Contra esse estado de coisas,
no momento em que a experiência do consumo
se tornava referência de identidade entre
as sociedades ocidentalizadas, alguns artistas iniciavam
uma aproximação crítica aos
valores de uma arte empenhada politicamente, de
reflexão não panfletária sobre
os problemas sociais, que apelava a uma profunda
reinterpretação da ideia do “outro”,
fosse na sua dimensão cultural, política
ou social, com vista a fundar uma mais consciente
e consequente ideia de pluralidade.
Em certa medida, a arte da segunda metade de Novecentos
aproximara-se do desígnio pós-estruturalista
de perscrutar um espaço de alteridade exterior,
buscando um “outro” capaz de derrubar
o logocentrismo ocidental. Esta onda crítica
apontava o dedo à “fantasia primitivista”
que ajudara a construir e desenvolver as “ciências
sociais” e o “modernismo artístico”
desde o século XIX em torno da ideia do “outro”
como expressão do “diferente”,
do “impensado”. Michel Foucault diria
a propósito que “o impensado (qualquer
que seja o nome que se lhe dê) não
está alojado no homem como uma natureza mumificada
ou uma história que nele se houvesse estratificado,
mas é, em relação ao homem,
o Outro: o Outro fraterno e gémeo, nascido
não dele, nem nele, mas ao lado e ao mesmo
tempo numa idêntica novidade, numa dualidade
irreversível”3.
(...) |
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Imagem de Casa |
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por
Pedro Bandeira
Entre o final dos anos 70 e os primeiros anos da
década de 80 não se pode dizer que
a dupla de arquitectos Herzog & de Meuron tivesse
muito trabalho. “We were too young and new
on the market to get commissions and therefore couldn’t
produce buildings as easily as an artist can produce
images”1. Cépticos em relação
ao «desconstrutivismo» que emergia à
escala planetária, estes “hometown
kids”2 procuravam novas possibilidades para
a arquitectura, não a partir de uma tentativa
de “introduzir um novo idioma” (no sentido
modernista do termo), mas antes a partir de uma
experiência pessoal e de situações
que lhes eram “familiares”.
Na ausência de encargos para uma arquitectura
material, Herzog & de Meuron encontraram na
produção de vídeos uma arquitectura
imaterial: “we came across video, which nobody
was using in architecture that time. Video images
are interesting because they relate to real life.
As photography, their pictorial reality expresses
things and acts that look real, so suddenly we found
ourselves with a tool that would allow us to express
our ideas on architecture in a contemporary form
even without a concrete commission (...) we produced
images of what could become architecture”3.
O projecto One Specific Room surgiu neste contexto.
Refere-se à participação da
dupla suíça na exposição
“L’Architecture est un Jeu... Magnifique”
(Centre Georges Pompidou, Paris, 1985) promovida
pela multinacional dinamarquesa LEGO. O desafio
proposto a vários arquitectos (entre os quais
Jean Nouvel), era construir uma “casa”
em peças de LEGO. Desvinculado de qualquer
compromisso, para além da rigidez das próprias
peças, as maquetas foram a oportunidade para
experimentar e radicalizar variadas opções
formais (no auge do pós-modernismo).
(...)
1 Jaques Herzog, Pictures of Architecture, Architecture
of Pictures, p. 13.
2 “Herzog & de Meuron are hometown kids
that have gone global like Ciba-Geigy”, escreve
Alejandro Zaera-Polo, “The Alchemical Brothers”,
in Herzog & de Meuron: Natural History, p.179.
3 Jaques Herzog, Pictures of Architecture, Architecture
of Pictures, p. 13.
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