#57
O Habitar colectivo
e a lógica do outro

por Baptista-Bastos | b.bastos@netcabo.com

Os gregos ensinaram que o homem é uma criatura gregária. Freud acrescentou: gregária e, simultaneamente, individualista. Heidegger: «um ser de lonjuras.» É nesta unidade contraditória que reside a grandeza da nossa condição. «Viver com os outros» é o título de um belíssimo romance de Isabel da Nóbrega e, também, a síntese civilizacional do que desejamos. Construindo para si próprio e para os outros, o homem é, amiúde, instigado a construir contra os outros. Le Corbusier elaborou um projecto de modernidade que se adequasse aos prolegómenos do pensamento grego e das teses freudianas.
É um marco importante na arquitectura e nos conceitos progressistas. A ideia de que a arquitectura tem como destinatária a sociedade do homem, nas suas relações com o mundo, com a cultura e com o conhecimento mais aberto, é um empreendimento intelectual que envolve as artes, as literaturas - e, até, o jornalismo.
O habitar colectivo é o penetrar num outro espaço lógico, que possui uma ética rigorosa
e uma estética essencial. A razão construída como razão comum. Vítor Figueiredo, Nuno Teotónio Pereira, Nuno Portas e Raul Hestnes Ferreira pertencem, de um ou de outro modo, com as singularidades e as idiossincrasias próprias, a esse projecto abrangente.
Essa responsabilidade exige um esforço de compreensão dos contextos das sociedades humanas em que o projecto vai ser aplicado. Evidentemente, há uma raiz ideológica e uma específica substância política num projecto desta natureza. Cada arquitecto deve proceder a um exame minucioso das suas próprias razões. Eis porque a ética é absolutamente inseparável da estética: mostra os limites da razão individual e as ambições da razão colectiva.
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Maio 2008