#57
Habitar Colectivo
A tensão entre modelo e evento na modernidade arquitectónica

por Luís Santiago Baptista | lsbaptista@revarqa.com

1Habitar colectivamente foi uma condição necessária para a afirmação da humanidade. Desde as aldeias neolíticas até às metrópoles industrializadas, a vivência em comunidade, delimitando diferentemente um âmbito privado e um público, tornou-se um factor determinante para a estruturação das sociedades. Na verdade, os principais historiadores da cidade demonstraram que uma das melhores formas de entender as sociedades era estudar atentamente as suas estruturas físicas, ou seja, as cidades. O isolamento da cidadela nas cidades pré-clássicas, a implantação dos espaços públicos nas cidades clássicas, a bipolarização entre praças religiosa e mercantil na cidade medieval ou a monumentalidade dos traçados barrocos dizem-nos muito acerca das sociedades que as realizaram. Com a modernidade essa correspondência implícita não se altera, mas pressentimos que algo se modifica estruturalmente nessa relação, tendo em conta o posicionamento disciplinar do arquitecto. De facto, a revolução industrial não deixou de manifestar claramente a nova ordem tecnológica, produtiva e social nas emergentes metrópoles. No entanto, perante a força avassaladora dos fenómenos da industrialização e tendo em conta a interiorização da ideia de progresso, a disciplina da arquitectura começou a assumir uma inaudita dimensão revolucionária. Significativamente, todo o projecto arquitectónico moderno se funda nessa premissa radical de que a arquitectura não deve simplesmente reflectir a lógica política e social existente ou dominante, mas propor, através de novos modelos arquitectónicos, uma intervenção reformadora e regeneradora. É esta ideia da arquitectura como domínio de emancipação social que, trazendo naturalmente não só um novo papel ético ao arquitecto, mas igualmente uma responsabilização da sua actividade profissional, motiva a emergência de uma nova concepção do projectar do habitar colectivo. Essa nova dimensão propositiva, utópica ou reformista, da arquitectura moderna actua assim não por simples reflexo da realidade das condições existentes, mas antes por exploração mais ou menos radical do seu horizonte de possibilidades, através de um trabalho sobre o programa e a tipologia. Apesar da violenta crítica à arquitectura moderna a partir da segunda metade do século XX, essa dimensão programática do trabalho do arquitecto não mais desapareceu, pelo menos no contexto europeu, estando bem presente nos debates contemporâneos. E a sua actualidade não pode ser facilmente desmentida ou menorizada. Num mundo globalizado, que se manifesta cada vez mais no que Koolhaas definiu como “cidade genérica”, a afirmação de propostas arquitectónicas de reinvenção do habitar colectivo torna-se fundamental para acompanhar criticamente e responder afirmativamente às mutações estruturais das nossas sociedades contemporâneas.

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Maio 2008