Habitar
Colectivo
A tensão
entre modelo e evento na modernidade arquitectónica |
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por
Luís Santiago Baptista | lsbaptista@revarqa.com
1Habitar colectivamente
foi uma condição necessária para
a afirmação da humanidade. Desde as
aldeias neolíticas até às metrópoles
industrializadas, a vivência em comunidade,
delimitando diferentemente um âmbito privado
e um público, tornou-se um factor determinante
para a estruturação das sociedades.
Na verdade, os principais historiadores da cidade
demonstraram que uma das melhores formas de entender
as sociedades era estudar atentamente as suas estruturas
físicas, ou seja, as cidades. O isolamento
da cidadela nas cidades pré-clássicas,
a implantação dos espaços públicos
nas cidades clássicas, a bipolarização
entre praças religiosa e mercantil na cidade
medieval ou a monumentalidade dos traçados
barrocos dizem-nos muito acerca das sociedades que
as realizaram. Com a modernidade essa correspondência
implícita não se altera, mas pressentimos
que algo se modifica estruturalmente nessa relação,
tendo em conta o posicionamento disciplinar do arquitecto.
De facto, a revolução industrial não
deixou de manifestar claramente a nova ordem tecnológica,
produtiva e social nas emergentes metrópoles.
No entanto, perante a força avassaladora dos
fenómenos da industrialização
e tendo em conta a interiorização da
ideia de progresso, a disciplina da arquitectura começou
a assumir uma inaudita dimensão revolucionária.
Significativamente, todo o projecto arquitectónico
moderno se funda nessa premissa radical de que a arquitectura
não deve simplesmente reflectir a lógica
política e social existente ou dominante, mas
propor, através de novos modelos arquitectónicos,
uma intervenção reformadora e regeneradora.
É esta ideia da arquitectura como domínio
de emancipação social que, trazendo
naturalmente não só um novo papel ético
ao arquitecto, mas igualmente uma responsabilização
da sua actividade profissional, motiva a emergência
de uma nova concepção do projectar do
habitar colectivo. Essa nova dimensão propositiva,
utópica ou reformista, da arquitectura moderna
actua assim não por simples reflexo da realidade
das condições existentes, mas antes
por exploração mais ou menos radical
do seu horizonte de possibilidades, através
de um trabalho sobre o programa e a tipologia. Apesar
da violenta crítica à arquitectura moderna
a partir da segunda metade do século XX, essa
dimensão programática do trabalho do
arquitecto não mais desapareceu, pelo menos
no contexto europeu, estando bem presente nos debates
contemporâneos. E a sua actualidade não
pode ser facilmente desmentida ou menorizada. Num
mundo globalizado, que se manifesta cada vez mais
no que Koolhaas definiu como “cidade genérica”,
a afirmação de propostas arquitectónicas
de reinvenção do habitar colectivo torna-se
fundamental para acompanhar criticamente e responder
afirmativamente às mutações estruturais
das nossas sociedades contemporâneas.
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