#57
Arlindo Silva
Habitar a Pintura
por Sandra Vieira Jürgens | sandravieirajurgens@gmail.com
diálogo

Arlindo Silva (Figueira da Foz, 1974) dedica-se a pintar momentos que capta com naturalidade e autenticidade com a sua máquina fotográfica. São instantes congelados, que advêm pintura, que passam pelo filtro da sua memória e constituem retratos surpreendentes do seu círculo de amigos.
Nesta entrevista falámos sobre os processos de produção da sua mais recente exposição, “A Espuma dos Dias”, das características da sua obra e, fundamentalmente, de pintura.

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Ana Vieira
Uma casa para todos
por David Santos | davidsantos@gmail.com


obra

Entre a primeira versão de Ocultação-Desocultação, instalação realizada no espaço da Galeria Quadrum, em 1978, no contexto de uma programação experimental e atenta à arte de vanguarda conduzida por Dulce D’Agro, e a segunda, apresentada na sobriedade Deco da Casa de Serralves, no Porto, em Dezembro de 1998, passaram uns longos vinte anos em que Ana Vieira não deixou de reafirmar, ainda que com discrição, um dos seus mais decisivos apelos criativos: habitar e partilhar um espaço de sensibilidade poética individual. Esse trabalho reificado duas décadas após a sua versão original repercutia ainda essa dialéctica sobre a translúcida afirmação do feminino na arte portuguesa, entre a opacidade e transparência, os sentimentos e a racionalidade de uma época que exigia cada vez mais
o reconhecimento da mulher também no domínio da manifestação artística. Pensar em 2008, trinta anos volvidos desde a primeira apresentação de um trabalho com características de comunicação tão particulares, marcado pela linguagem conceptual e o desejo de comunhão imagética, poderá constituir ainda uma espécie de mnemónica afectiva, dado que Ocultação-Desocultação mantém activo o princípio de um convite essencial: sonhar e construir, não com tijolos e cimento mas apenas com a imaginação, a experiência de habitar uma casa que é simultaneamente de Ana Vieira e de todos aqueles que aceitarem o desafio dessa experiência artística.
Com efeito, não era uma casa de sonho, mas o sonho de uma casa, o que Ana Vieira nos propunha em 1998 na majestosa modernidade de Serralves. Sitiada pela dimensão onírica dessa obra, a própria casa de Serralves se viu então transfigurada na sua consciência de espaço e de lugar. Os segredos e as cumplicidades cruzaram os “ambientes” numa espécie de “espacialização” da memória, mais transitória ou inconstante. Nesse sentido, e assumida como retrospectiva de uma obra essencial da segunda metade deste século português, essa mostra não poderia ter sido realizada noutro lugar. De facto, as analogias são imediatas e inequívocas. A lógica da ocupação faz-se com a tranquilidade afectiva e ilusória de quem desejou sempre esse lugar eleito.

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Maio 2008