#43
HIBRIDEZ E LIBERDADE

Baptista-Bastos

Todas as crises resultam em avanços qualitativos da criação humana. As dificuldades aguçam o engenho, e a História no-lo ensina que a marcha do homem nunca foi rectilínea. Actualmente, o problema da coexistência da crise social com a criatividade comum à nossa condição, não está resolvido. As soluções ilusórias não conduzem a coisa alguma, e gente do coturno de Pierre Bourdieu ou Noam Chomsky advertiu de que crise geral do capitalismo tenderia a reduzir o mundo a uma única dimensão, ou a acentuar a importância do talento, do génio, como factor de transformação, de harmonia e de equilíbrio.
Os movimentos, a acção e o comportamento humanos têm a ver com o contexto sócio-político. Habitualmente, o criador é um «desinserido», um ser «marginal»: deseja inventar e não obedecer. A livre expressão entra, amiúde, em conflito com as exigências económico-sociais do tempo. Dessa contradição nasce uma tão improvável como absurda união, e dessa união a personalização de um estilo, de um traço característico.
Nos regimes totalitários a estética e o consumo influenciam, directamente, um e outro, numa lógica que não é deixada na sombra nem pelos artistas nem pelos empresários. Essa lógica é tida quase como valor único. Quando esses regimes terminam manifesta-se uma sobreexcitação pelo novo a que se sucede uma espécie de hibridez formal. A arquitectura é um reflexo dessa ansiedade inovadora (digamos assim), que se traduz, posteriormente, numa relação vertical (do lado do mando), contrariando uma relação mais horizontal (da parte do criador) com a estética e a ética.
(...)
 
Março 2007